O orfanato

A ida do “nosso pai” adoptivo
Deixou grande orfandade!
E chora-se que já não há vontade
De viver sem dinheiro-vivo!

O qu’ele nos dava de mesada,
E agora nem um chavo!?
E s’ele ainda nem estava calvo,
Porque foi d’abalada?

Tinha tanto para dar
Às suas famintas crianças!
E agora vão-se-nos as esperanças
D’ele um dia voltar!?

Tantas décadas de bondade
Par’os seus filhinhos,
E na hora, arruma-se-lhos paninhos
Esquecendo-se da orfandade!!?

O que será de nós,
Órfãos deste casario!?
Quem é que nos dá o atavio
Se já nem temos avós?

E o tio que está doente
Já nem nos pode alimentar!
E o padrinho ainda nos pode dar,
Mas só a pouca gente…

Já não há comida
Nesta antiga casa farta!?
E agora o raio qu’os parta
S’eu ainda “dou a vida”!?

Se me pedem pr’a salvar
O resto da nação,
Eu digo logo que não,
Que já só estou por estar!!

Eu queria er’o meu padrinho,
O homem que me fez o que sou!
E agora que nos abandonou
Qual será o meu caminho?

Há gritos, histerias,
No antigo palácio de cristal,
Porqu’a orfandade do local
Ainda esperav’o Messias!!

Oh, que pena,
Lá se foi um grande ser humano!
Nunca mais haverá assim um fulano
Entre Lisboa e Djamena!

E agora s’o afilhado
Também lá met’a baixa?
Quem é que mais s’agacha
Pr’a salvar mais um “reformado”?

Isto está uma desgraça
C’a saída do nosso “sol nascente”;
Ele até podia ter sido presidente
Do bairro da Graça!

Tinha competências
E conhecimento activo,
E um alto padrão produtivo
No seio de tantas “ausências”…

Er’o maior feitor
Da luta contr’o absentismo!
E do próprio romantismo
O seu maior criador!

Tinha um Universo
Pr’a gerir como mercearia,
E a nossa maior alegria
Er’a isso ser um sucesso!!

Nas artes criativas
Conseguia efeitos miraculosos,
E a preços fabulosos
Tod’os lhe davam “vivas”!!

Só falta conhecer o preço final
Da factura,
Mas isso não é cultura
Que se quantifique como tal!?

A salvação da pátria
Tinha muito mais peso,
E nunca ninguém irá preso
Por a defender c’a sátira!

E indo-se o salvador
Ficámos todos órfãos,
Eu e os meus irmãos
Já comemos melhor…

Agora é o que há
Nessa selvajaria,
E cada um já s’avia
Aqui e acolá…

Dizem que é democrático,
Coisas de equidade,
Mas esta mocidade
Perdeu o sentido prático!!

Onde já se viu um padrasto
Dar igual a filhos e enteados?!
E os dois serem criados
Com o mesmo gasto!?

Eu ainda tinha esperanças
Que depois de consultor,
O meu pai-salvador
Viesse pr’as suas crianças

Mas agora que se foi
C’uma carta tão bonita,
Que estava tão bem escrita…
Como isto dói!!

Vieram-me as lágrimas
Às púpilas!!
E eu ainda consegui vê-las
A caírem por matéria-prima!!

Ai, o que se vai perder
De tanto conhecimento,
E quem vai dar agora cumprimento
S’ele já não render?

É uma tragédia
Ver tal casa farta,
Agora sem a nata-da-nata
Pr’a nos fazer a média!?

Queremos o nosso paizinho
De volta!
A malta não o solta
Pr’a ir de carrinho!?

Queremos a nossa vida
D’antigamente!!
Nós também somos gente
D’alma sofrida…

Ainda qu’a carteira
Esteja recheada,
Temos a alma quebrada
Na parte interesseira!

Estamos de luto
Porque se foi o padrinho!
E a orfandade chora baixinho
O valor em bruto!

Porqu’a liquidez
Já não é o que era,
E porqu’a atmosfera
Ganhou solidez…

E nessa relação
Entre o ir e voltar,
Quem se sabe no lugar
D’ainda ter refeição?

É uma incerteza
Esta mudança do clima,
Que nunca se sabe o que está em cima
Da mesa…

Se lá é comida
Ou apenas isco,
E s’esse petisco
Nos sabe p’la vida!?…

Joker

Captura de ecrã 2017-06-04, às 22.17.17

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Posted on 5 de Junho de 2017, in Palhaçadas. Bookmark the permalink. Deixe um comentário.

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