São Tomé

Depois de lá ter estado
Já entendo essa razão,
Essa maior ambição
Do voo tomado!

Essa ânsia de paraíso,
Esse gosto refinado,
Esse ensaio roubado
Ao compromisso!

Esse gosto p’lo quente,
P’las águas suaves e mornas,
P’las canções, pelas formas
Do antigamente!

Esse rebuscado gosto
P’lo quadro do passado,
Quando então o Novo Estado
Não estava ainda deposto…

Esse gosto do selvagem,
Do travo do Equador…
Uma ilha tod’a amor
Num abraço de voragem!

Uma virgem que nos toma
No seu enleio pr’a sempre,
E um saudosismo do presente
Sem rastreio ou idioma…

Agora entend’a tentação,
Essa reincidência no engano,
Esse rebuscado plano
Da “pontuação”!!…

Também eu tudo daria,
O meu vigor, os meus princípios,
Os meus fins, os meus inícios,
Se sempre lá eu me via…

Eu vendia tudo
Pr’a ter a ilha minha,
E uma roça por vizinha
No fim do mundo…

Eu sonegava a lei
E o Acordo Plural,
E trocava Portugal
Só pelo Príncipe, não p’lo Rei!

E se tinha São Tomé
Tod’os os santos meses,
Fazia mil asceses
Na Santa Sé!

Rezav’a Santa Teresa
Ou a São Pedro,
Pr’a mexer um dedo
Sobr’a “realeza”…

E enviar-me pr’o “desterro”
Dessa virgem ilha,
Como se fosse a oitava maravilha
Do erro!

E ainda que culpado
De práticas avulsas,
Todas eram escusas
Pr’a lá me ver regressado!!

Queria lá saber
Dessa pontuação,
Ou s’o Direito tem razão
Sobr’o poder!

Eu queria-me era lá,
Nessa minha ilha,
E seguir a trilha
Entre lá e cá!

E sentir-me em casa
Tod’o santo mês,
Porque eu também seria freguês
Dessa ilha em brasa…

E quando lá chegado
Ir logo ao mergulho,
Porque em qualquer esbulho
Já me via trocado!

E “arrefecido”
Nessas águas quentes,
Passar dias indolentes
Num trabalho a pedido

E depois ter da ilha
Já a sua posse,
E não a ceder, nem que fosse
Por acumulação da milha

Ah, como te compreendo,
Tu aqui reinaste…
Se fosse eu que mandasse
Também os ía fazendo…

E depois d’esgotados
Mudar de pousio,
Ou visto o rasto do fio
D’eleitos e “nomeados”…

Como Teseu,
Quando venceu o minotauro
No seu próprio labirinto,
No mar Egeu…

Pois qu’Ariadne
Lhe tinha dad’o cordel,
Para sair dessa Babel
Na corda do arame…

E como na Mitologia
Assim segu’a vida,
E s’ela fosse bem lida
Há muito que s’a conhecia…

…Ou que se venh’a saber,
Que disso saberão os Deuses!
Qu’a vida tem revezes
Mesmo quando tudo é lazer…

Joker

clube

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Posted on 2 de Março de 2017, in Palhaçadas. Bookmark the permalink. Deixe um comentário.

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