Cap. III – A Temperança (Auto dos Navegantes)

Cap. IIIA Temperança

A barca recuperada nas suas atribuições, debelada nos seus rombos e, aprumada na sua orientação, apresta-se a navegar ao Novo Mundo, tomando como destino Porto Seguro…

Capitão – Eia lá, rapaziada! Está tudo pront’a partir? Isto agora vai parir uma grande armada!!

Imediato – Agora é que vão ser elas, ó meu grande Capitão! O qu’aqui vai d’emoção! Içar as velas!!!

Pequeno-Capitão – Agora é sempr’a eito! Já passamos p’lo estreito, e o mar está desbravado! É seguir ao El dorado!

Piloto – (…mas isto está tudo trocado!?)

Chega-se El-Rei ao pontão, com um novo Capitão…

El Rei – Eia lá, meu caro amigo! Tenha lá calma consigo, que lhe trago uma ajudante para seguir consigo adiante…

Capitão – Majestade, que indignidade… Há séculos que sou Capitão da caravela da nação!!?

El-Rei – Não vos incomodeis, meu bom D. Casto, o caminho até lá é nefasto, e a barca custou dez mil reis!! Há que ter franco cuidado, não vá o caminho ser trocado, e aportar-vos de novo a África, sem glória franca ou táctica… E aqui me basto!!

Assoma-se a Capitã d’El Rei, e numa carícia elegante, dá ao Capitão o sextante…

Capitã – A nau é sua, meu caro Casto! Eu só m’atasco a olhar a lua, e ver as estrelas a navegar! E só vou estar a dar às velas!

Piloto – (…balelas!)

El-Rei – Com dois timoneiros é-se previdente! Qu’aí há gente… Flibusteiros! Que nos querem mal! E Portugal é dos primeiros!!

Imediato – Mas, Excelência, por previdência, por cá estou eu! E não há breu, ou ingerência, que nos naufrague! Qu’eu tenho a nave na Intendência!!

El-Rei – Consta que sim, bom D. Fernando, mas no comando ouve chinfrim! E já s’ouvem vozes, que por audazes, me chegam a mim…

Dino, o cão – Caíííímmmmmmm!!!…

Capitão – Calado, cão!! Fal’a Nação, pois tem cuidado!!

El-Rei – É só uns meses, pr’a estagiar… A Capitã não tomará o teu lugar junto dos Deuses! És imortal nesta Nação, um campeão de Portugal! Foste o descobridor de novas rotas, abriste as portas ao Equador, descobriste o sextante, incentivaste o navegante, optimizaste processos, fizeste relatório dos excessos, e cartas maiores de navegação que te eternizarão!

Piloto – (…xiiii, que canção!)

Capitão – V. Excelência tem-me em penhor! Se já passei o cabo Bojador, se já destronei o Adamastor, é agora que me vetais a competência?

El-Rei – Dos capitães, vós sois o Gama, e vossa fama nunca temeis! Tenho-vos em conta pr’a esta viagem, mas aquela abordagem deu-vos má montra…

Capitão – Mas… era só um bando, salteadores! Uns amadores! E sem comando!

El-Rei – Consta que lá vinha o Barba-Roxa, que não é trouxa, nem vai na onda…

Piloto – (…com’a terra é redonda!)

Capitão – Nem ficaram perto!! E no mar aberto nem se viu rosto! E ao sol-posto, um mar deserto…

El-Rei – Mas ele ronda, anda na quilha! De ilha em ilha, por detrás da onda, ele lá espreita… E V. Senhoria nem suspeita!! Não cheg’o cão pr’o defender; e se morrer na circum-navegação?

Capitã – Pois cá estarei eu, com temperança! Haja confiança! Aqui D’El Rei!!

Capitão – Com temperança? Mas, não há esperança noutras virtudes? E contr’os ventos rudes onde fic’a “lança”?

Capitã – Não é por África, pois com certeza!! Qu’em tal destreza perdeu o mapa…

Piloto – (…ai, a macaca!!)

El-Rei – Tenhais lá calma, e fraternidade! Haja amizade, e muita alma! Qu’o grande poeta, dito Camões, lá viu Barões na praia deserta…

Pequeno-Capitão – Mas era um lírico, um pinga-amores!! E morreu sem confessores, nem panegírico!!

El-Rei – Mas está na História, por escrever versos, e aos outros, os “textos” não lhes deram glória…

Imediato – Mas quiçá, uma vitória…

El-Rei – …e de que serve vingar a honra, se há quem morra sem “navegar”?

Capitão – Mas aqui navega-se e com sucesso! E não há reverso no que se lega!!

El-Rei – S’isso é sucesso, a terra é sua! E tom’a lua e o universo! Qu’a maior ética não é vingar, e sim navegar a “Ítaca”!!

Capitão – A Ítaca? Majestade, onde é lá isso? É um ponto fronteiriço, uma nova oportunidade?

Imediato – É uma terra nova? Fic’a Ocidente?

Piloto – (…tão eloquente!)

El-Rei – É o ideal, é a força-vivente! Não fic’a Ocidente, nem a Oriente; é a força-moral, meu inteligente!!

Pequeno-Capitão – Ah, assim de repente, pensaria V. Excelência em que local?

Piloto – (…falta cumpri-lo em Portugal!?)

El-Rei – …Meu animal!!!…

Fim

nau

Posted on 26 de Novembro de 2016, in Palhaçadas. Bookmark the permalink. Deixe um comentário.

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