Auto dos navegantes – Cap. I, “A Intempérie”

Capítulo I – “A intempérie” 

Anda a nau à deriva, nesses mares instáveis das modernas descobertas e, assoma-se o capitão à coberta:

Capitão – Ó da Guarda, ó da Guarda! Quem nos pode dar um rumo que, noutro sentido e prumo, nos proteja da bojarda!?

Assoma-se o imediato ao capitão, sempre solícito e bajulador…

Imediato – Queira V. Ex.a ter fé! Não dê o barco à ré que’a justiça tarda mas, ainda há sobra de maré…
Capitão – Não nota quo barco s’afunda e s’eu perco esta balandra, nunca mais ninguém me manda uma barca, ou uma escuna!! E que vou depois fazer, eu que me tenho a morrer em tal barca… Que desbunda!?
Imediato – Pois eu Fernando Leal, aqui d’el Reino de Portugal, não abandono este barco, porque o sei sempre igual e, demais um imediato permanece no comando!
Capitão – Ó meu bom Fernando, mas olhe o desmando e, esta tripulação feita bando sem orientação!? O que será da caravela, que dava tanto à vela, com parca, mas pródiga tripulação?
Imediato – Tudo se tem a seu tempo e o que não tem remédio, não tem contratempo! Havemos de nos ter a navegar porque é aqui o seu lugar e, o nosso galeão há-de trazer tanto ouro que todo este mau-agouro será fabulação!
Capitão – Deus t’ouça, Deus t’ouça! Já lá escuto novo trovão e treme a tripulação, que já não ousa!!
Imediato – Há que ter fé e avançar! É esse o nosso lugar! Por direito e mote próprio e não há monstro ciclópico que nos vá parar!!
Capitão – Isto é pior qu’o Adamastor e, uma vez no bojador, não há volt’a dar! E pode esta esta nau afundar…
Imediato – Mas, temos a protecção divina e não existe tal triste sina, pois tem-se Deus com os seus…
Capitão -… E de que me vale tal protecção se aqui no mar há furacão e, não há reza ou garantia que me dê uma santa via até de novo encontrar chão…

Nisto grit’o piloto na proa:

Piloto – A mim, a mim! Têm-se gigantes as vagas e os ventos chiam tais pragas que isto me parece o fim!!!..
Capitão – Nada temas meu bom D. Miguel! Isto é vento de tropel, e estas vagas “pequenas”…
Imediato – Mantenha-se firme e teso! Não sejais, D. Miguel, já preso antes qu’isto afunde!!
Piloto – Mas as vagas fazem rombo!! Aqui me tenho num tombo e o meu negócio no Congo de malas aviadas…
Capitão – Estais a pensar no negócio!? E o que será do vosso sócio se tudo isto afundar!? Quem vai trazer as especiarias!? Quem vos comprará as iguarias de tal contrabandear? E de vossa esposa, o que sucede? Nada se perde no seu bom ócio? Atentai na confiança, dai-vos esperança na bonança, qu’o mundo é nosso!!
Piloto – Ó meu bom capitão, que por nobre se conheça quem nisto ainda engrandeça esta nau em perdição…
Imediato – Ser-se nobre por condição é virtude muito séria e ainda nos sobra matéria pr’a fazer a navegação! E optimizada que está em tais processos manuais, nem estas vagas brutais nos pararão como armada!!

Assoma-se o barco de apoio à ilharga e, de lá grita o seu pequeno comandante de bordo:

Pequeno-Comandante – Ó da Guarda, ó da Guarda! Vós lá estais, meu Capitão? Dêem-me aqui uma mão, que esta barca não chega ao cais…
Capitão – Coragem meu bom D. Pedro, que nunca mais tenhais medo como s’isto fora uma abordagem! Isto são ventos agrestes e, essas vagas, “rupestres” dos fins dos tempos… São apenas uns fogachos, já que estamos protegidos e, demais, fomos ungidos na Santa Igreja dos machos!!
Pequeno-Comandante – Isso é fácil falar, ó meu querido capitão! Mas ponha-me aqui a mão e veja este coração a bombar!!? E o que será de minha esposa, ela que é tão boa moça, se eu não lá voltar?
Imediato – Há-de morrer, com certeza!? E que sofrimento lhe pesa quando de São Tomé volver…
Capitão – Ó homem vire-me a boca! Já se lhe está a dar a louca! Esta nau vai a preceito, a Porto Seguro, a direito! E não serão umas vagas, umas ventanias penadas, que me darão outro auguro!!
Imediato – Bem falado, ó Capitão!! Finalmente lhe veio a razão! E a coragem dos timoneiros, eles que foram os primeiros a enviar tal mensagem!!
Piloto – Esse não foi o Pessoa? O da Mensagem? O de Lisboa! Já me dissera um amigo que desde as Caldas o sigo e, como poeta me soa!! Tem uns versos, uma melodia… Qu’em cada sua palavra sua eu via melhores textos!! Eu que versado me tenho e, ao ver poeta tamanho,   feito um Bordalo! Não um badalo, ou um falo…
Capitão – Avante, pois! Que não há rombo, ou enorme estrondo, feito um gigante, ou mesmo dois, que nos corte a jusante!!!…

Navegam as naus na intempérie, mas já se lhes descobrem os raios da bonança…

(Continua..)

auto

Posted on 15 de Outubro de 2016, in Palhaçadas. Bookmark the permalink. Deixe um comentário.

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