Ninguém escreve ao furriel

Minha querida,
Tu que andaste na luta
Sabes o que é a labuta
Da nossa vida!?

Sabes o qu’é trabalhar
No ponta da seriedade,
Em prol da comunidade,
E do seu bem-estar!!

Agora que já aí estás
E dás valor ao trabalho,
Não sejas carta-fora-do-baralho;
Que és capaz!!

E tens-me aqui por ti
Pronto a dar a vida,
Carla, tu sabes minha querida,
O qu’eu sofri!!

E s’algum dia a greve
Com’o demónio te tentar,
Tens sempre qu’a renegar
Como se deve!!!

E metê-los no barracão,
Chamuscá-los c’o fogo!!
Qu’o resto deste povo
Diz não!!

E tu sabes qu’esses
Nada fizeram p’la vida,
E têm-na bem conseguida,
Às vezes!!

Porqu’eu sou o furriel
Que manda na camarata,
E comigo (quase) ninguém escapa
Deste quartel!!!

As esses que, ociosos,
Gozam de sobra de tempo,
Eu trato-os a tod’o momento
Por presunçosos!

Menos à minha santa
Qu’é filha deste mester,
E mando-a onde quiser,
Porque ela aguenta!!

Trabalha como uma moura
A viajar pr’a Talatona,
Qu’um dia nem a Mamona
A segura!!

E salta em comprimento
De Miami até Luanda,
E tudo numa semana
De sofrimento!!!

E ainda me acusam
De ter um bar por aberto,
Pr’a estar mais perto
Dos que não s’escusam!??

E quererem-me corrupto
Só por criar clientela,
E isto ser a esparrela
D’eu ser inepto??!

E agora surgid’a bronca
Ninguém me manda um postal,
E a minha mulher qu’anda mal,
Como uma sombra?!

E não mais se brindou
À nossa prosperidade,
E era tanta a liberdade
Do que findou!?

E o fluxo de contrabando
Anda p’la hora da morte,
E num dia de muita sorte
Alguém pois mando…

Senão é ver o stock
Quase sem s’escoar,
Porque quem o podia pagar
Já anda em choque!!

E agora qu’o maioral
Se foi da regra dos “mouros”,
Só há pequenos tesouros,
E não o Santo Graal!!!

Carla, nota-me esta desgraça,
O mundo está do avesso!!
E s’isto é um recomeço
Sem a trapaça???

Como se vai laborar,
Fecundo de tanto vício,
S’o sistema der início
Ao automatizar???

Mas tenh’a vingança
Na força da minha virtude,
E tiro a saúde
A quem tem esperança!!

E faço nesse poeta
O exemplo doutro amanhã,
E assim se terá novo afã,
Na renovada coleta!

É tempo de transição,
E de s’amainar os desejos,
E nisto te deixo os meus beijos
De desolação…

Do teu amigo fiel
Que de ti não s’aparta,
Responde a este carta
Do teu ex-furriel!

P.S.
Ainda se faz um “trabalho”
Ali uma vez ou outra,
Mas crê-me, querida garota,
Só a foice de talho…

Furriel Teso

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Posted on 9 de Outubro de 2016, in Palhaçadas. Bookmark the permalink. Deixe um comentário.

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