Auto da barca do Purgatório

S’eu vivesse
No melhor de dois mundos,
E voos oriundos
D’onde quisesse

Também me ficava
Por esse “purgatório”,
Pois qu’ao acessório
Eu não m’agarrava!

E estando lá no “limbo”,
Nesse rio “Lete”,
Não se me dava frete
A cada cúmulo-nimbo!

Pois sempr’os fazia
Pr’o mesmo destino,
E do pecado divino
Já m’absolvia!

E no “purgatório”
Só tomav’a barca,
De barriga farta
E demais falatório!

E isso que vale
Quand’a passagem,
Já nos dá vantagem
Sobre quem lá fale!?

Deixá-los falar
Sobr’o meu epíteto,
Porque tenh’o antídoto
Para me salvar!!

E passand’a barca
Par’o outro lado,
Tenh’o voo marcado
Sem passar da marca!?

Vou e volto ao céu
Sem passar ao inferno,
Porque nist’o governo
Sem maior escarcéu!!

E no melhor dos mundos
Faço a penitência,
Sempre na coincidência
Dos grandes “defuntos”!

Pois vivi na Terra
Como no paraíso,
E já me sou preciso
No voo que não erra!!

Vou e volto na barca
Passando dois mundos,
E a porta dos fundos
Nunca s’atraca!!

Tenh’o universo
Assim aos meus pés,
E em tantas marés
Nunca eu vou preso!

Passo nesta vida
Mudando de barca,
Mas sempre ela atraca
Na mesma partida!!?

Mas que célebre auto
Faria Gil Vicente,
Desta mesma gente
Que não parte um prato!!?

E no caracter
Dessas personagens,
Sempr’as mesmas viagens
Pr’a alguém as descrever…

É intemporal
A humana faceta:
O judeu, o asceta,
A virgem e o jogral!!

Sic gloria transit mundi…

pigs

Posted on 13 de Setembro de 2016, in Palhaçadas. Bookmark the permalink. Deixe um comentário.

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