Como pão pr’a boca

“Como está o mundo, tinha perguntado o velho da venda preta, e a mulher do médico respondeu, Não há diferença entre o fora e o dentro, entre o cá e o lá, entre os poucos e os muitos, entre o que vivemos e o que teremos de viver, E as pessoas, como vão, perguntou a rapariga dos óculos escuros, Vão como fantasmas, ser fantasma deve ser isto, ter a certeza de que a vida existe, porque quatro sentidos o dizem, e não a poder ver, (…). Ao rapazinho estrábico basta-lhe a satisfação de levar calçados os sapatos com que sempre sonhou, nem chega para o entristecer o facto de não poder vê-los. Por esta razão, provavelmente é que não vai como um fantasma.”

[Ensaio sobre a cegueira – José Saramago]

 

Como pão pr’a boca

Sei qu’é utopia
Querer mudar o mundo,
Mas viver por mudo
Fingindo a fantasia

Não me dá a certeza
D’isso ser o certo,
E nisso estar mais perto
Da minha nobreza

Não posso mudar
Aquilo que não sou,
Mas s’ao outro dou
Nisto que pensar

Movo consciências
Na sua condição,
Mas não clamo atenção
Pr’a ter audiências!

Faço-o por imperativo
Da minha verdade,
E tendo da liberdade
O valor mais querido!

Não, não o condeno
Por pensar diferente,
Mas sou coerente
No meu valor eterno!

E nisto questiono
O porquê dos factos,
Vendo em tais relatos,
O simples abandono…

Nessa relação,
A simples ligeireza!
E da nossa riqueza
O saber pedir perdão!

É o nosso producto
Em tal vivência humana,
E o medo é coisa insana
Em tal busca do lucro!

Temos da vida o incerto
Na busca da felicidade,
E a “cruel” realidade
É o que está perto!

Por isso mais ousamos
No despudor do dia,
Querendo essa alegria
No que tomamos…

É isto que se sente
Em tal vivente conceito,
A dor que jaz no peito,
Por deprimente…

Um sentido bem alerta
Que nos ilustra,
Qu’a vida “custa”
Na luta certa…

E já nos dispomos
Pr’a tal combate,
Qu’o maior dislate
Vem do próprio Cosmos!

Tod’a imensidão
No vazio do incerto,
E o Homem ser o centro
Da própria ilusão!

O peso da consciência
Sobr’os nossos ombros,
Por se tomar dos escombros
A nossa inocência…

E daí o erro
No pecado mortal,
Nesse Deus brutal
Que nos dá enterro…

E por inocentes
Nesta vida austera,
Conceber, na espera,
Deuses indiferentes!

E sem tal moral
Por valor de ética,
Ter-se por profética
Tod’a acção por igual…

Porqu’o nosso intuito
É o imediato,
E o futuro um hiato,
Demasiado fortuito!

E nisso é querer
Muito mais qu’o outro,
E viver num sopro
“Tudo” até morrer!

Não interessam meios
Senão o próprio fim,
Porqu’o ser-se assim
Não nos deixa freios!

E em tal “liberdade”
Poder optar,
Quanto mais ganhar
Pr’a “felicidade”!

O valor futuro
Que lá se presume,
Já nisso se reúne
Por seguro…

Pois qu’a vida ingrata
Não nos deixa escolha,
E o viver na “bolha”
É a promessa inata!

E nisto vivemos
Sem o menor pudor,
Pensando qu’o amor
É o que sofremos!

E se na confusão
De valores, conceitos,
Se se pisam direitos
É por mera função…

Todo um abstracto
Dessa “filosofia”,
Que por ser uma “via”,
É um facto!

Tod’a realidade
Ganha nova forma,
E tudo se conforma
À nossa vaidade!

Pois tudo se vende
À nossa intenção,
E o que nos dá razão,
É o que isso rende!

Por idealistas,
Passamos ao prático,
E num sentido tático,
Somos materialistas!

Qu’o que cá existe
É a “realidade”,
E nessa “verdade”
Tudo nos assiste!

Fazemos mover
Este mundo e o outro,
E s’a vida é um logro,
Podemos não o ser!

E já vencedores
Sobre esta existência,
Renegar da ciência,
Os pensadores!

Só o funcional
Gerará producto,
E se fará do lucro
O único ideal!

O que são valores
Perto d’abastança,
E tod’a confiança
Em tais gestores?

Pr’a quê questionar
A realidade,
S’a funcionalidade
Nunca irá parar?

E por inadaptado,
Ter-me nisso utópico,
Viver melancólico
Num mundo tomado!?

É pois conformar
Este pensamento,
E pensar no aumento
Que posso ganhar!

E sem outra ideologia
Ter-me com “razão”,
Qu’o mundo sem “pão”
A que mais servia?

Faz tod’o sentido
Tod’a esta premissa,
Qu’o viver tem presa
De se ter nutrido…

Joker

bumeranguebr

Posted on 25 de Março de 2016, in Palhaçadas. Bookmark the permalink. Deixe um comentário.

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