Panamá

O Panamá, porto de pescadores na língua indígena local, era, ao tempo da colonização espanhola, conhecido como o triângulo dourado. Muita da prata e ouro vindos da zona das costas do pacífico, quer da terras do Perú, quer das selvas mexicanas, era aqui trazido para, a partir do “Panamá Viejo” – a primária localidade erigida no local em 1519 por Pedrarias Dávila – que aproveitando a estreiteza do seu istmo ( que mais tarde daria origem ao canal do Panamá moderno ) ser enviado por terra, e depois rio acima até às costas atlânticas, nomeadamente ao sítio de San Lorenzo ou à Baía de Portobello, donde eram depois carregados em grandes galeões e deslocados a Espanha. A ligação Panamá-San Lorenzo-Portobello faz, no mapa, a exacta proporção de um triângulo quase perfeito.

Não sendo uma terra com grandes riquezas minerais, ao contrário de outras províncias espanholas, o Panamá à época setecentista e oitocentista servia, como hoje, como porto d’embarque. O canal do Panamá alberga ainda hoje, esse simbolismo e riqueza, que ao tempo detinha quando ainda era uma colónia espanhola. O seu istmo, a sua especial configuração geográfica proporcionou-lhe uma importância estratégica que superava então, a sua potencial riqueza territorial. Os navegadores de então, percebendo a importância da poupança em recursos, material, homens e tempo, numa ligação (quase) directa entre o Pacífico e o Atlântico, fizeram do Panamá um porto (de vários portos) de referência. Disso se aperceberam, de igual modo, os grandes rivais da Espanha de então. Corsários Ingleses, Franceses e Holandeses, tomaram os portos atlânticos do Panamá como a sua fonte de receita primordial. Os portos (e fortes) dessas três localidades foram sistematicamente atacados, por grandes corsários de referência à época. Sir Francis Drake atacou, saqueou, incendiou e acabou por falecer às portas de Portobello, estando aí enterrado em parte incerta. Sir Henry Morgan, outro corsário inglês, em 1671 começando por atacar a fortaleza de San Lorenzo, desceu o rio Chagres, e num último percurso a pé, tomou de assalto, em quase completa surpresa, a antiga cidade do Panamá, saqueando-a por semanas a eito, e incendiando-a para numa mais voltar ser edificada no mesmo local. Só três anos mais tarde, e a uma distância de dez quilómetros a sul se voltou a edificar a cidade do Panamá actual.

Ontem como hoje, o Panamá tem sido uma terra a saque. Desde os corsários do século XVIII, à tutela americana do século XX – motivando e apoiando a guerra dos “mil dias” contra o então estado colombiano para forçar a independência do Panamá – com um protectorado mantido por oitenta e cinco anos, tem este território sido alvo da sua particular situação geográfica. O seu “petróleo” é a sua particular localização entre dois mares. A construção do canal do Panamá no início do século XX, foi a antecâmara da sua autonomia e independência patrocinada pelos EUA. A criação de uma ligação directa entre dois mares, encurtando distâncias e gerando receitas, foi pedra-de-toque para a aplicação (como noutras estados da América Latina) da célebre Doutrina Monroe à influência e tutela directa dos EUA sobre o Panamá. As inúmeras bases desmanteladas, desde que os tratados Torrijos-Carter, em 1977, puseram fim a 96 anos de colonização americana no local, deixam, a quem as visita, uma sensação de vazio e, simultaneamente, de desconforto. Todo aqueles conjuntos arquitectónicos, vazios, de estrutura puramente americana, rodeados por uma selva que os vai, aos pouco, consumindo, lembra-nos que tais bases – que foram no passado, centros importantíssimos de estratégia político-militar para toda a América Central e do Sul – são um símbolo, inesquecível, daquilo que Oliver Stone, no seu magistral documentário “South of the Border”, releva para o ressurgimento de líderes políticos como Hugo Chávez, Rafael Correa, Nestor Kirchner, Evo Morales, Fernando Lugo e Lula da Silva, como movimentos de oposição a uma política de influência americana na América do Sul.

Digamos que em cem anos de ocupação, o que restou desse pequeno Panamá, conhecido mais pelo seu canal que pelo país em si, foi a criação de uma gigantesca obra de engenharia que serviu, mais que as populações locais, os interesses geo-estratégicos e financeiros das potências administradoras do canal. Atente-se na magistral sátira de espionagem, escrita por John Le Carré em “O alfaiate do Panamá” e percebe-se, claramente, a rábula da administração de um país que não tem auto-determinação. Nessa conjectura, Le Carré brinca com factos históricos e políticos reais, na sua obra de ficção. A invasão do país em 1989, por parte dos EUA com base na “Operação Justa Causa”, com o argumento visando a protecção dos americanos no local e a salvaguardo do mandato de captura do General Noriega dá-nos o real alcance da independência real desse país em face da grande potência do continente. Os acontecimentos militares em “El Chorrillo”, o bairro mais pobre e o reduto mais feroz de “Norieguistas” da cidade do Panamá, que levaram à morte de centenas de panamianos, é prova bastante dessa política de força e de jugo sobre o pequeno país da América Central.

A ponte de “Las Americas” liga a América do Sul à América Central, unindo dois sub-continentes, divididos pela obra da engenharia humana. Essa obra, quiçá umas das mais grandiosas do Séc.XX tem hoje projectos e trabalhos de expansão. Quem visita a cidade do Panamá, a espaços, sente-se numa pequena cidade americana. A moeda em curso é o dólar, em concomitância com a moeda local, o Balboa, de idêntico valor e paridade. Os grandes e espelhados prédios da capital reluzem nessa marginal, que ao primeiro contacto nos deixa de boca entre-aberta. Toda a obra do canal é, sem si, de um aparato e sincronismo que causa espanto. Mas esse Panamá-americano cessa nos limites ricos da cidade. Na periferia, onde as classes mais desfavorecidas desaguam das suas horas de labor (e muito suor), o retrato é idêntico a tantas e tantas metrópoles da América Latina. Bairros pobres, e uma imensa maça humana de “mestizos” deserdados da sua própria terra. Quem viaja no país tem a mesma sensação de abandono – desde a sua génese encetado pelos povoados espanhóis -, pois o país em nada se assemelha ao centro da sua capital. Até a segunda cidade do país, Colón, deve envergonhar o navegador no seu túmulo multi-secular… Confesso que nem coragem tive para sair do automóvel, eu que me sinto um viajante destemido e ousado, pois o nível de decrepitude, de sujidade, de decadência era tal, que me senti, de pleno, nessas descrições de soturnidade, luxúria, doença e epidemia que Somerset Maughan ou Joseph Conrad, faziam desses portos de marinheiros, nas suas obras em voga no inicio do Século XX.

Todo um lastro de pobreza e de decadência, cujo registo é tanto mais enfático, se o compararmos à babilónica capital do país. Naquilo que me foi dado a conhecer, nada se assemelha a essa orla marítima da capital, não que esse seja um referencial de beleza absoluto, mas apenas e tão só porque falamos, em principio, de um mesmo país. A segunda cidade do país é uma antítese dessa unicidade previsível num país tão pequeno. Salva-se a paisagem, as pessoas, e os registos históricos desses locais, mágicos, classificados como património mundial da UNESCO, San Lorenzo e Portobello. As pessoas são de uma simpatia e solicitude assinalável e, os locais quase que os podemos reportar à época, dado o seu bom nível de preservação.

Bem sei que a história da colonização europeia da América não é, como tantas outras estórias da História, bonita. Foi feita de conquistas, massacres, enganos, desenraízamentos compulsivos, escravidão em massa e muita, muita manipulação teológica. Ainda assim, e por forte sentimento de apego à cultura, ao saber, à simples curiosidade, não pude deixar de registar momentos de completo êxtase quando, sozinho, pude confrontar o Atlântico, desde a fortaleza de San Lorenzo, e imaginar-me uma peça mais dessa engrenagem da História. O sentimento de estar, só, confrontado com o mar desbravado por esses homens, cuja coragem e audácia era sintoma de vida ou morte, no alto desse promontório que Morgan e o seus homens tomaram de assalto, no ano do Senhor de 1671, ou ver-me em pleno Forte de San Fernando, tomado pela selva envolvente, nessa ilha que “protege” a baía de Portobello, onde o lendário Drake se viu imortalizado, é de “per si” paliativo para qualquer reserva mental sobre o “natural” sentido das coisas. A política é uma prova de força, e os países são o reflexo desse processo de evolução histórico-política. Antes como hoje, o Panamá vive o seu momento da história, num abandono demarcado como “colónia”. Como há quinhentos anos atrás os espanhóis, também por agora os americanos terão votado ao esquecimento a “colónia”, para a reverter mais tarde, porventura, como o Triângulo Dourado da sua política externa do Século XXI, ligando, através dessa “Ponte das Américas”, não já só a América do sul à central, mas todo o continente americano. Os panamianos, pelo menos aqueles que tive oportunidade de conhecer, é que, provavelmente, nunca o saberão.

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Posted on 21 de Junho de 2015, in Panamá, Política, Viagens and tagged , , , , , , , . Bookmark the permalink. Deixe um comentário.

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