A origem dos tempos…

Há poucas coisas tão singularmente belas quanto um crepúsculo ou um nascer do sol em África. A confluência de cores, a intensidade do dourado no mundo, a particular incidência da luz nesse quadrante, são únicos. Em África sentimo-nos nascer desde os primórdios do tempo e quando a luz se vai, fica, no breu, todo um mistério de sons e cheiros que nos petrifica, não por medo, mas por um reverente respeito pela expressão da vida, num continente ainda deserto e virgem do preconceito de modernidade.

Nesse continente, pejado de um caracter único de vida, a natureza expressa-se em tons exuberantes. Não sei se por isso, mas nessa expressão única de dar e receber vida, a natureza compraz-me como em nenhum outro local. A cor da terra, o cheiro da aurora, a particular proximidade do contacto humano e a intensidade dessa natureza selvagem, confluem-me numa redoma única de sentimento existencial. Todo o homem terá nascido em África e desde o renascer dos tempos todos por lá nos temos renascidos. É nesse renascimento sucessivo em cada despontar dessa auréola dourada que me sinto renovado na minha condição de homem, como parte integrante dessa natureza envolvente. Creio que nenhum homem se sente mais próximo da sua natureza animal, senão quando em presença de um universo que lhe é correspondente na sua plenitude espacial. África tem essa correspondência à nossa génese de vida. É lá que me tenho nascido, de cada vez que desponta o sol sobre o mar índico, aos pés de Maputo, ou que me revejo, por mil vezes, nesse lago Nakuru, em Masai Mara, pejado de flamingos que aguardam pela passagem do monomotor de Denys Finch Hatton para, esvoaçando, cobrirem de rosa a imensidão de prateado dessas águas, num espectáculo único de cor, simetria e cumplicidade…

Como Karen Blixen teria dito, também eu já fui feliz em África. Mas ao contrário dela, que nunca lá voltou após essa felicidade trágica, eu tive e tenho a oportunidade de lá voltar com uma frequência que não sendo a desejada é, no mínimo, benfazeja. Por cada vez que volto por lá me tenho renascido, nesse meu continente de “origem”. E por cada vez que páro e olho (porque em nenhum outro lugar a aurora ou o crepúsculo nos obrigam, com essa intensidade, a tal) esse astro redondo, banhado de tons de ouro a invadir-me a retina, tenho a plena compleição do mundo até à origem dos tempos…

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Posted on 9 de Junho de 2015, in África, Maputo, Viagens and tagged , , , , , , . Bookmark the permalink. Deixe um comentário.

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