O “Tulha”

Há mais de quarenta anos que o “Tulha” é emigrado.
Nasceu em Santo Tirso, terra de Jesuítas, e frequentou a Escola Agrícola. Passou pelo Ultramar no período da Guerra Colonial e serviu como Furriel-Enfermeiro. Por lá, colocado na frente mais acesa da guerra na Guiné junto à fronteira com o Senegal, assistiu a muitas ocorrências. Contou bastantes desse período onde conviveu de perto com o General Spínola, ao ponto de se ter insubordinado com o então Chefe do Estado-Maior…

Nunca mais voltou a Portugal, nem lhe sente a falta… Tem uma filha com vinte e poucos anos a quem gostaria de mostrar as suas origens mas, desde a morte do pai, que não tem vontade – ou razão – para voltar a ver o país que o “abandonou” há mais de quarenta anos. O irmão enganara-o depois do seu regresso de África. Ao chegar a Portugal, aliciado por amigos de familiares que viviam em “Vera Cruz” decidiu-se então, a emigrar.

Chegado ao Rio, nunca mais de cá saiu. Passou por diversos bairros e por muitas profissões. Fala com o orgulho e esmero de quem recebeu uma educação sólida. Fala muito, e conta-me estórias das suas vivências no Rio e em África. Encontrei-o, por acaso, no Parque da Boa Vista junto ao jardim zoológico da cidade e perto do local onde D. João VI, após o “desterro” no Brasil, viveu os seus dias antes de regressar a Lisboa. Conta-me que dali, D. Pedro I (do Brasil) construiu vários túneis para, discretamente aceder à casa da sua amante predilecta, a Duquesa de Santos, que dista cerca um quilómetro daquele local…

É vendedor de rua. Vende brinquedos para a “criançada” que frequenta o parque da Boa Vista  e o jardim zoológico. Tem um sócio, brasileiro, que o acompanha e que “torce” pelo Vasco da Gama. Ele, pelo contrário, “torce” pelo Flamengo, o “clube do povo” como faz questão de frisar. Apesar de viver em São Cristóvão, bairro dessa imensa diáspora dos portugueses dos anos vinte e trinta que emigraram para o Rio de Janeiro, considera-se, de pleno, um “carioca”. Reconheceu-me quase de imediato pela fonética, pelo sotaque marcadamente português que faço questão de frisar de cada vez que me desloco ao Brasil. Não que atente contra o Português falado nestas paragens, que respeito e admiro no trato de evolução da própria língua ( e da junção de tantas influências), mas porque tenho muito orgulho na ancestralidade da minha. Como diria Fernando Pessoa, mais do que essa identidade sócio-política que nos vincula a um determinado espaço territorial, é a língua que nos dá a verdadeira natureza de “pátria”, tendo-se esta como agregado de valores sócio-culturais e filosóficos.

Identificado com português, logo fui acolhido pelo “Tulha ” e pelo seu sócio “vascaíno”. Tinha-me ali deslocado para obter informações sobre a casa da Duquesa de Santos onde supostamente deveria funcionar o museu do primeiro reinado. (Aviso desde já, que se encontra fechado e para obras). É claro que o sócio brasileiro não conseguia entender como tendo ali tão perto o Estádio do Vasco da Gama para visitar, me poderia interessar por um museu…

Partilhados cigarros (que o “Tulha” odeia, mas que o seu sócio consome incessantemente) e comentários, o “Tulha” continuou a discorrer sobre a sua vivência, dividida entre a Guiné-Bissau e o Rio de Janeiro. Desde vendedor de fruta  a confessor de almas, o “Tulha” viveu uma vida cheia de plenitude e significado.”Não há um único português que conheça o Rio como eu!”  rematava o nosso patrício, num trejeito inconsciente para a autocomiseração. Senti, ao presenciar o seu rol imenso de estórias que ali estava um homem para quem a vida, a sua vida, tinha tido o epicentro num acto enganoso. O seu percurso, desde África à América do Sul tinha tido o seu ponto decisório numa terra que de alguma forma, o abandonou. A sua pátria, que o tinha mandado defender a bandeira numa terra agreste e longínqua, tinha servido apenas de entreposto para uma viagem longa, de longos quarenta anos de equívocos. Não, esta não é uma história de sucesso. Aquela não me pareceu uma história do “el dorado” de tantos portugueses que fizeram fortuna neste lado do mundo. Estou aliás em crer que por cada português que venceu nessas circunstâncias, outros dez tiveram vivências menos “felizes” na consecusão dessa “riqueza”.

Mas de todo me pareceu uma vida perdida. O “Tulha ” falava com um galanteio na voz, com uma precisão verbal que me deixou pensativo. Perguntava-me eu, a espaços, como podia um homem com tal “bagagem” poder viver uma vida aparentemente tão “vulgar”. O “Tulha” revelava uma memória prodigiosa para acontecimentos de há quarenta, cinquenta anos a esta parte, aos quais o seu sócio acenava num acto de concordância e conhecimento. Devia ter ouvido tais estórias algumas centenas de vezes, pois sabia-lhes os pormenores e reclamava que aquele contasse determinadas ocorrências que no deambular da conversa o faziam perder. Estive plantado nesse banco do jardim um bom par de horas, deliciando-me com a conversa e com o magnetismo pessoal de um homem, aparentemente, tão igual a tantos outros. Nada de mais errado. Ali naquela parque, a pouco menos de quinhentos metros da mansão de Reis e Imperadores, estava um insigne representante dessa diáspora lusitana, que nunca regressado à pátria – mas nunca a renegando – fazia da língua, dessa língua que Camões resgatou das águas do Índico para a elevar à imortalidade da condição lusa, o elo indelével da nossa ligação à origem…

Anúncios

Posted on 3 de Junho de 2015, in Viagens and tagged , , , , , . Bookmark the permalink. Deixe um comentário.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s