A condição humana

Há poucas coisas na vida que no-la façam sentir tanto como a incerteza do passo seguinte. Estarmos perante o desafio de uma decisão, num quadro de absoluta incerteza, torna-nos no instrumento da nossa capacidade de superação. Esta contingência a que a vida nos obriga, ou a que, de tempos a tempos, nos fazemos obrigar, dá-nos uma dimensão mais real do nosso devir existencial.
Só no quadro dessa incerteza temos a real percepção que a vida não é um dado adquirido. A vida, nesse enquadramento, é uma peça solta na engrenagem universal. Todas as possibilidades estão em jogo quando temos que nos confrontar com a nossa capacidade de superação. Só nessa contingência a vida se torna “real”, pois só nesse momento temos a percepção do seu real valor.

Na nossa vida quotidiana tomamos a vida como um discorrer de actos, mais ou menos conformes e adaptados, a uma pré-existência devidamente alinhavada a preceitos de razoabilidade. O que é expectável em termos societários é que façamos as coisas de acordo com a “normalidade”. Tudo o que se espera do homem “moderno” é que siga a cartilha da previsibilidade. Em nome da normalidade existencial não devemos, jamais, questionar os cânones do “bem viver” nesta civilização moderna. Por isso aspiramos a ter mais dinheiro, para ter mais segurança, mais comodidade, mais poder, maior capacidade de controlo, em suma essa capacidade de viver uma vida sem sobressaltos ou imponderáveis que questionem o nosso lugar no mundo.

O Homem age, em essência e primariamente, num acto de instinto pela sua sobrevivência física. Só de pois de assegurada esse subsistência, trilhada e resgatada pelo nosso cérebro reptiliano, nos moldamos para aspirar a outras realizações. O crescimento e o desenvolvimento do nosso cérebro humano a outras camadas e a outros “cérebros”,  por amálgama, levou-nos, enquanto espécie, a desenvolver a percepção da consciência e, mais concretamente, da auto-consciência. Essa evolução genética revelou-se fundamental para nos re-situarmos, enquanto espécie, no quadro da evolução. O Homem, ao aspirar ao pensamento sobre si próprio teve que, necessariamente, começar a questionar-se sobre os fundamentos essenciais da existência. Satisfeita a necessidade de sobrevivência sobrou ao Homem a formulação de outras variáveis existenciais. Essa,  diria, quase imanente necessidade de expressão artística como forma de recriação ou reprodução dessa realidade abrangente, levou o Homem, enquanto espécie, a um patamar de criação que o catapultou, no quadro da natureza albergue, para o centro manipulador dessa coexistência. Não se conformou o Homem – a partir da noção da sua auto-importância no seio de um mundo que vivia de acordo com as regras da natureza – a ser apenas mais uma peça nessa engrenagem de vida que o obrigava a lutar pela sua auto-subsistência. Adquirida e desenvolvida essa capacidade de pensar, de raciocinar, sobrepujando os cânones instintivos desse cérebro em mutação, pôde o Homem começar a agir sobre o meio que até o então o controlava na sua aspiração primária à existência.

Criada e desenvolvida a noção de “eu” essa individualidade passou a agir sobre o mundo como forma de o re-adaptar à sua vontade, nascida dessa noção de “ser”. Tudo deve servir, enquanto móbil, a esse re-enquadramento do Homem no mundo. Daí nasce uma determinada teologia que configura o papel de Deus à imagem desse novo homem nascido do pensamento mais elaborado. O nascimento de Deus presta-se ao nascimento desse Homem “moderno”, dotado da capacidade de re-criar um novo mundo. “Transmitida” essa missão do Deus ao Homem, cabe a este dotar o mundo duma ordem em que nela se configure a espécie no centro da criação. O Homem é o centro do mundo  e nele tudo se conforma à sua vontade de desenvolvimento. A vida deixa de ser um processo mecânico, natural, de nascimento, vida e morte, obedecendo a leis prévias e insondáveis, e passa a ter um fundamento, uma validade própria, julgada pela consciência de quem a vive.

Nessa correlação entre o viver e a consciência de se viver nascem os preceitos filosóficos para dar validade a uma determinada forma de vida. A consciência impede o Homem de viver sem regras, sem preceitos, sem objectivos que não sejam o da mera sobrevivência. É despiciendo viver sem um propósito. Esse propósito, seja ele qual for, “eleva” a vida desse Homem a um patamar que o aproxima desse Deus feito à sua imagem. O Homem torna-se um projecto de auto-realização. A cada vida gerada, a cada geração passada, a cada civilização erigida, aspira a novas realizações. Só essa aspiração “consciente” dá sentido a essa nova forma de vida. É o Homem, já não o homem instintivo e primitivo, que constrói, e não Deus, o seu sentido de realização. E por cada acto de realização, por cada novo projecto de aspiração, esse sentido de vazio, de incerteza, de probabilidade, está presente como plano edificador dessa obra projetada. Só o sentido da possibilidade, mesmo num quadro de improbabilidade, pode permitir ao Homem a superação das suas pretensas ou reais limitações. O velho aforismo de que o homem deve sair da sua zona de conforto continua tão válido agora, como o foi para os nossos antepassados há milhares de anos atrás, ainda que não o racionalizassem.

Só a porta do desconhecido, essa vontade de conhecer mais, de saber mais, de realizar mais, nos forja para um novo projecto de superação. E essa superação pode nem comportar grandes feitos aos olhos desta humanidade tão sequiosa de novos heróis. Trata-se apenas de pequenas realizações, tão pessoais, tão intrínsecas – que vistas num plano de maior dimensão se equivalem a quimeras de eternos sonhadores – que nos transportam para acontecimentos e situações, que por mais insignificantes que transpareçam, não deixam de produzir no seu interveniente um impactante momento existencial.

Essa vontade de ir mais além nessa minha paixão pela História levou-me, muitas vezes, a locais inóspitos e desconfortáveis, a cujo acesso, fosse pela vontade do tempo, ou do Homem, se queriam resguardados e esquecidos da memória civilizacional. Tive, algumas dessas vezes, que me superar na determinação de querer em desprimor do calculismo e da sensatez a que a situação, porventura, atenderia. Descobri, nesses momentos de indecisão, que o prazer da aventura, da realização, do saber, do sentir, supera, em muito, o possível desfavor das parcas. Por muito “racionais” que possamos ser numa decisão deste tipo o nosso desejo de aspiração leva-nos mais longe. Aconteceu com os Portugueses há 500 anos atrás, quando em pequenas cascas de noz, descobriram um mundo que se queria plano, obscuro, perigoso e infernal…

O nosso desejo de aventura, a nossa sede pelo conhecimento, a nossa ânsia pelo desconhecido leva-nos a tomar decisões que, à partida, e em mentes mais sensatas e comedidas, não teriam razão de ser. Sair do conforto do nosso hotel de 5 estrelas, no seio dessa grande metrópole e embarcarmos na aventura do desconhecido, num país distante e diferente, em busca do célebre “El Dorado” ou da longínqua Villa de LLeyva – peça colonial cristalizada no tempo -, numa capital cujo trânsito é pouco menos que infernal, depois de ter vivido uma autêntica rábula para tentar alugar um carro e um GPS (que quase nunca funcionaria…) é prova segura da “insensatez” que provém a cada decisão nova de superação. Não que essa superação seja, de per si, uma absoluta decisão racional senão uma prova inequívoca que é o nosso instinto, quiçá o nosso cérebro reptiliano, quem toma este tipo de decisões, o que poderia gerar a prova “absurda” que o nosso sentido evolucionário se sedimentou não no cortex e neo-cortex – cérebros mais evoluídos e recentes -, mas no nosso cérebro “animal”…

O desejo é uma emoção retalhada entre o pensar e o agir, entre o instinto e o intelecto, que ganha força-motriz no nosso desejo de superação. Desejar algo e realizá-lo, perante o quadro mais ou menos adverso da sua materialização, é prova suficiente dessa necessidade, sempre presente, do desafio e conquista. O Homem vive circunstanciado entre o passado, presente e futuro. A memória, sedimentada em acontecimentos pretéritos, molda-lhe o traço da personalidade e crava-lhe, no seio da sua consciência, uma identidade única a todo o tempo recriada nos acontecimentos do seu presente e nas expectativas com o seu futuro. Nenhum Homem é um produto acabado. Essa necessidade de novas formulações identitárias cria, no espectro da vida, uma realização que se adequa à natureza do universo que o envolve. Nada é estável e tudo se encontra em constante mutação. A todo o momento  (se assumirmos essa configuração que o tempo, de facto, existe) a vida aspira a novos patamares. O Universo formula-se, distende-se, projecta-se em novas probabilidades. Nesse quadro o Homem, porquanto constituído pela mesma matéria universal (i.e. a energia), não pode realizar-se no contexto das mesmas expectativas residuais. Essa ânsia, esse desejo de ir mais longe, de querer mais, de saber mais, não se conforma à atitude do Homem “moderno”, que vive uma existência de conformidade. Essas aspirações de “senso comum” a que a vida moderna materializa na obra do consumo, não produz a realização integral do próprio Homem. A ânsia do desconhecido, o prazer da conquista, da vitória do incerto sobre o previsível, a busca de novos horizontes, reconduzem-se à génese da evolução da própria raça humana. O homem só evoluiu, enquanto espécie, porque não se conformou à sua condição sacrificial. Não se limitou em ser apenas mais uma peça no largo engenho da natureza que o envolvia e ousou pensar, sonhar, querer, agir. Mesmo contra os seus medos mais recônditos e os seus preceitos instintivos mais conservadores, ousou sair da sua zona de conforto, e ao assim agir, deparou-se com novos riscos, sim, mas com outro jogo de probabilidades, de igual modo.

Ir mais além, calculado riscos, é certo, dá-nos a inebriante sensação de existir num outro Universo. Aí forjamos a vida, não nos limitamos a vivê-la. Ir de encontro a esse desejo, recôndito e “adverso”, configura-nos numa identidade nova na qual deixamos de pensar em nós, no Ser, para nos projectarmos no fazer. Esse campo de realização, no qual por momentos nos esquecemos da nossa individualidade, obriga-nos a empreender, com todos os nossos sentidos, a audácia de existir! Confrontados com o absoluto, com a incerteza do passo seguinte, da curva seguinte, do destino final, somos obrigados a viver nos píncaros das nossas verdades, até então, proverbiais. Pouco ou nada tem importância por esse passado forjado, senão o referencial dessa necessidade de nos realizarmos a cada momento. Sozinhos nessa serra, nessa selva, num quadro de absoluta impotência perante a certeza da decisão seguinte, rezamos a esse Deus pela oportunidade surgida, pelo desafio tentado e pela conclusão dessa aventura-limite. Quando nos deparamos com essa oportunidade de estarmos entregues apenas a nós próprios, lembramo-nos que esse Deus, inventado ou recriado, é a solução final, por nós engendrada, para nos superarmos na nossa condição humana…

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Posted on 14 de Maio de 2015, in Viagens and tagged , , , , , , , . Bookmark the permalink. Deixe um comentário.

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