A insustentável leveza do ser

Kundera

Confesso que, como sempre, nas decisões de maior importância da minha vida optei pela leveza. Nesta profissão que abracei há mais de vinte anos, o fundamental, no acento crítico da decisão, foi a leveza a ela associada em contraposição a factores de vocação, ou à preparação de fundo a que um curso superior poderia fazer supor na hora da escolha.Optei pela leveza de uma profissão sem maiores responsabilidades, ou objectivos, que não fossem a simples presença de espírito que se exige a um navegante dos tempos modernos. Essa leveza associada a uma escolha profissional poderia fazer supor que se trataria de uma escolha fácil, o que não o é, como não o foi. A leveza, neste caso, opõe-se ao seu binómio de peso como circunstância de vida e, nem sempre o mais leve se afigura o mais fácil.

Neste caso, no meu caso, a leveza da opção tomada contrapôs-se ao meu desejo de fundo de ser outra coisa, e que, no plano final da sua integração, me levou em função de circunstâncias várias, a optar pela decisão mais leve. Mais leve também em função da escolha mais lógica ao tempo. Ao optar por este profissão que, de per si, se revela leve em função do peso do ar, sabia de antemão que tipo de vida a mesma a ela estaria associada. Uma vida com regras muito específicas, onde o padrão mais comum, quando equiparado com a vida “normal”, é o facto de ao tripulante lhe ser permitido, ainda que no plano formal, ter família. O facto de agora ser permitido, por factores que têm a ver com a evolução da sociedade e da lei, ao tripulante ter família (o que noutros tempos não era possível), dá um peso sustentado à leveza da sua escolha profissional.

Uma espécie de equilíbrio de base configura, na escolha desta profissão, uma responsabilidade acrescida à nossa função de pais, filhos ou avós.  Sabendo que em função da leveza da escolha, ou da leveza intrínseca que esta profissão acarreta na avaliação exterior, um determinado padrão existencial está subjacente na selecção de qualquer profissão, no meu caso em concreto, e, porque a eleição se perfez não numa opção vocacional senão circunstancial, o peso da decisão é multiplicado por todos estes meus anos de função. É uma equação difícil mas de resultado prático. A vida como sobreposição de opções, tem nesta premissa – a escolha da profissão – o nosso basilar existencial. Somos muito do que fazemos e de como o fazemos.

Neste meu caso o resultado dessa soma, dessa sobreposição de escolhas, teve e tem, na minha óptica, uma leveza intransponível que resulta num saldo francamente positivo.  Tenho a certeza que se fosse hoje o que idealizei fazer noutras ocasiões seria necessariamente uma pessoa de um peso bruto insustentável. Não me consigo rever noutra forma de ser, decorrente desta aprendizagem extraída dum espaço e tempo onde o peso especifico de cada um é diluído nas margens de toda e qualquer fuselagem. Nessa leveza onde a vida se alberga a centímetros da morte, somos, todos nós, necessariamente mais próximos do que idealizamos. Estando mais próximos do céu, essa sensação de leveza, pródiga de anjos e querubins, transporta em todos os seres humanos que gravitam nesse espaço sagrado, uma máxima de complementaridade ao nosso peso ideal.

Nem demasiado pesado nem demasiado leve; é essa a equação real para a sustentação da vida nesse espaço onde a densidade, o peso e a orientação são os vectores fundamentais para nele se sobreviver.  Estando tão próximo desse mundo como tenho estado ao longo destes mais de vinte anos, posso reafirmá-lo hoje, que a leveza dessa minha escolha foi, quiçá, um puro momento de sorte. Parece que tudo se conjugou, no peso dessas minhas decisões, para que tivesse que optar pela decisão “light”, quando comparada às possibilidades de uma carreira na advocacia ou na Polícia Judiciária…

Como diria Kundera, na reflexão de Tomás, médico-cirurgião caído em desgraça após a invasão de 68 pelos Russos, vendo-se arrastado para os últimos degraus da escala social como lavador de janelas, estranha essa sensação leveza quando se compara nas suas anteriores responsabilidades e funções. Uma vocação de vida, um “es muss sein” é, então,  diluído na sensação de leveza, não como sentido de irresponsabilidade ou desapego, mas como um sentimento alternativo de existência.

É certo que existe uma tendência insustentável em toda a forma de leveza sem sustentáculo à vida. Nada existe sem o seu oposto, e, nesse doseamento dicotómico estará, porventura, o segredo do nosso equilíbrio existencial. Poderia supor-se, porventura, que quando falo em leveza se pudesse presumir irresponsabilidade ou ligeireza, num contraposto à meticulosidade ou complexidade, no exercício doutras funções ou profissões mas, este meu desiderato de leveza tem uma associação clara com a simplicidade e prazer.

O meu intuito de leveza resulta da nossa condição, eu diria natural, para a busca do simples, do prazenteiro e prático. A minha escolha pela leveza, sustentável, decorrente desta profissão tão frutuosa e reveladora, teve a ver com a sua natureza prática. Podemos, por assim dizer, viver trabalhando. É possível, ou antes é mais possível, serem os seres humanos que nela trabalham, mais iguais a si próprios, decorrentes da natureza das suas funções e meio onde trabalham.

O ar é leve e, nessa leveza, as pessoas tem uma especial predisposição a serem mais próximas da sua natureza, para o bem ou para o mal… Na imensidão do espaço, a exiguidade do elemento comporta, necessariamente, o equilíbrio fundamental à percepção da nossa limitude. Temos, enquanto tripulantes, uma percepção dum mundo aberto, onde milhões de pessoas reais coexistem em espaços exíguos, de tempos a tempos, sendo o mais próximo que sabem ser na sua natureza. Isso dá-nos uma dimensão de vida real que, creio, outra profissão não nos dará.

Essa dimensão do ser, num espaço “adverso”, num meio estranho, transporta-nos ao âmago do ser, numa aprendizagem sem paralelo com outra experiência que tenha tido. E é, nessa leveza, que a vida se mostra mais próxima da sua “insustentabilidade”. O ser que nela habita tem, por força da natureza e da física, modelos de tracção mais exíguos que os seres que vivem e trabalham noutros níveis de gravidade. O que é leve pode, de uma hora para a outra, tornar-se num peso morto.

Quer seja por fatalidade do destino, ou por opção e escolha, as decisões (ou indecisões) tomadas num quadro com esta leveza assumem, quase sempre, consequências inadiáveis. Nessa fugacidade as decisões assumem um peso chave… Vem esta conversa a propósito de nova fatalidade com um voo da Malaysia Airlines, onde faleceram cerca de trezentas pessoas, entre passageiros e tripulantes. Quem, por leveza ou certeza, tenha optado por esta profissão, sabe, de antemão, as contingências a que está sujeito quem trabalha, na sua essência, para salvaguardar as vidas e bens de quem transporta. E é disso que se trata, no peso da opção por uma vida como esta.

Tenho a certeza que os meus colegas da Malaysia Airlines, como eu tantas vezes, pensaram na possibilidade da morte como circunstância da vida e, mais concretamente, como possibilidade de uma escolha de vida. Nessa escolha, optaram esses meus colegas, por uma circunstância de ser, não sei se tão leve como a minha, de prestar-se ao serviço dos outros entregando a sua vida como medida de caução.  A vida é uma circunstância da morte, mais que o seu reverso, e, nesse silogismo, viver é um acto de tão especial leveza que só o peso da morte lhe pode trazer significado. Ninguém, nem nada, vive para sempre, e, a vida é um cruzamento de imponderáveis precisos, onde ciclos e ciclos de vida e morte perfazem a razão da existência.

Neste ciclo mais tripulantes morreram ao serviço das suas escolhas, dando um fundamento e razão à nossa acção de ser, pois, na morte também existe significado. Não esse significado impresso nas páginas de alguns jornais (assumidos com tal) onde o espectáculo da morte é vendável aos nossos instintos mais básicos, mas esse significado insustentável, da nossa leveza de ser…

 Joker
 
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Posted on 20 de Julho de 2014, in Comunicação Social, Palhaçadas, Viagens and tagged , , , , , , , , , , , , , , , . Bookmark the permalink. 2 comentários.

  1. Belíssimo texto!

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