Funeral Blues

Creio que, com a idade vamos racionalizando os acontecimentos. Lembro-me que em garoto me chocava com certos actos e ocorrências mas, digamos que as coisas nos passavam com maior rapidez pela consciência. Havia, digamos, um mundo para ser vivido, descoberto, interiorizado pela experiência, mais do que pela razão e, portanto, as grandes questões reflexivas, eram deixadas para outras calendas. Mas a idade amadurece tudo. O corpo, a consciência, a experiência, a racionalização dessa mesma experiência. As coisas já não vão e voltam e ficam-nos no aparato do acontecimento chocante. E, porventura, há coisas que me chocam mais agora do que há vinte ou trinta anos atrás. Será sinal dos tempos ou sinal da nossa velhice? Estarei a tornar-me um chato com a vida?

A vida chateia-me, felizmente, em alguns pressupostos apenas. Em tudo o mais sinto o maior dos prazeres em vivê-la! Com solenidade, com respeito, com reverência. Mas no que me constrange nesta vida é a atitude de alguns dos meus semelhantes. Tenho um terrível defeito em julgar os outros pela minha própria referência. Acho que todos o teremos, um pouco. E nesses comportamentos que me ofendem, mais que as grosserias, a má educação, a falta de civismo ou mesmo este nacional-porreirismo odioso, é a covardia, o caracter que mais abomino. Odeio a covardia e na gente covarde vejo o capcioso do mundo. Ofende-me, terrivelmente, a falta de coragem que as pessoas têm em viver a sua vida. O medo é o grande senhor da nossa sociedade. Vivemos no medo, no terror de alguém nos identificar num qualquer propósito ou projecto de vida que, quanto mais se afaste deste medíocre sentimento reinante, mais é tido como elemento de subversão dos valores vigentes. E as pessoas, moribundas nos seus quereres, automatizadas nos seus afazeres, industriadas nos seus pensares, vivem uma vida de autómatos. Funcionam nos códigos vigentes, sem elementos de subterfúgio que, a existirem, são cânones de um secretismo quase sacrificial. A sua vida, a sua miserável vida, não pode correr o risco de ser descoberta.

Só por isso os inconformastes são tidos por loucos. São portadores de uma doença incurável e socialmente transmissível. Há que fugir deles, evitar qualquer coligação, parceria, associação, uma qualquer singela ligação. Nem que seja um inerte gosto, um “like” no facebook… Não, alguém pode reparar, e isso pode ser traumatizante para a minha futura reputação. Pois é, as pessoas vivem de reputações futuras, já que as presentes são inexistentes. Pois, se sem existem! E nem sequer se querem mostrar vivas! Mais vale um morto-vivo do que um vivo, entretanto morto, pensarão. A vida é tida como um valor absoluto, mesmo na mais miserável das existências. E nem falo de padrões de materialidade, porque dos pobres, inconscientes, coitados, e mais preocupados com o sobreviver do que em viver de facto, nem vale a pena falar, nesta conversa de fundamento existencial.

Não, o “zomb”i não vive no limiar do subsistência física; a sua morte é mental, é uma liquidação do pensar, do ousar, do ser verdadeiro e totalmente fiel à sua própria condição existencial. É mais fácil morrer, pois viver, de pleno, em consciência, em verdade, dá muito trabalho. Há que tomar decisões, muitas vezes fulcrais, que nos colocam no boca do mundo, e nos revelam como o maluco da música do saudoso António Variações: “Lá vai o maluco, lá vai o demente, lá vai o maluco, assim te chama toda essa gente…”
Aos loucos não se assacam parcerias, não são tidos por génios no seu pensamento, e nisso, esta humanidade se vai mantendo, século após século, milénio após milénio, denegando os seus tresloucados, e promovendo as santas virtudes dos seus imbecis, dos seus covardes, dos seus aquietados, dos seus sinuosos, dos seus medíocres…

“Amadeus”, o filme de Milos Forman sobre as vidas de Mozart e Salieri, em contraposição, retrata magistralmente esta verdade naquela cena em que o mestre italiano, no manicómio, em confissão dos seus pecados e maldades profanas sobre o génio austríaco, se vira para os restantes loucos e diz algo do género: “Medíocres deste mundo, eu vos absolvo!…”

A absolvição é certa. Deus não condena. Nem sequer a mediocridade existencial. Há milénios que a humanidade se esgota nela, e o mundo contínua a re-viver. Creio que esta sociedade, este mundo é o espelho dessa evolução. O mundo está estagnado, esta civilização é inerte, sem chama, sem fulgor, sem ousadia… Vivemos uma existência sem audácia, sem valores éticos que nos mantenham no propósito do sublime. Preferimos subjugar-nos à vacuidade do que enaltecer o brilhante. Vivemos na mentira da nossa intimidade mais soturna, olvidando-nos que só conseguimos deixar de ser rastejantes, quando apontámos às árvores. E delas não queremos sair. Fomos à lua, mas só para ver as vistas. Voltámos ao solo, porque rastejando nos sentimos mais seguros. Voar para quê, se o pó é nosso conduto? E se ao pó havemos de regressar, porque nos darmos ao trabalho de o limpar?

Somos uma brigada de dragões obedientes. Legionários do conformismo. Como diria uma das personagens do “Terceiro Gémeo” de Ken Follet, o Major Charles Logan, “Se formos.. todos soldados obedientes, quem escreverá a poesia, quem cantará os blues…?”…

blues

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Posted on 24 de Novembro de 2012, in Sem categoria and tagged , , , , , , . Bookmark the permalink. 6 comentários.

  1. De facto pouca coisa nos choca mas, irrita-nos tal…apatia e um conformismo sem precedentes!

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  2. Sem dúvida! Concordo plenamente! Obrigado pelo seu comentário!

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  3. Olá Joker gostei deste teu texto, bem pensado e escrito, (para mim, bem melhor do que aqueles que escreves sobre o sindicato, se calhar porque são muitos). Concordo plenamente que vivemos num mundo de pequenez, que percorre toda a nossa sociedade, desde o mais alto expoente da nação, o nosso acabado silva, reformado que lá vai fazendo uma perninha para assegurar a sua reforma e a das sua maria, à 2ª figura do estado outra reformada, aos deputados, juízes, governo e todo o povo por aí abaixo. Infelizmente não temos figuras de rasgo, que tenham uma visão de futuro, que transformem essta sociedade.
    Bjs . Maria do Céu.

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  4. Obrigada, Maria do Céu, antes do mais, pelo seu comentário… Concordo que nos faltam figuras de rasgo, nesta sociedade, até porque o sistema, tudo faz para nos mantermos na nossa zona de “conforto”. Cada vez mais formatamos consumidores, em vez de pensadores. Quem nos pretende escravizar, joga com tacto e sabedoria. É no ensino, e na economia que nos faz formatar, subjugando-nos…. Bjs!

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  5. Absolutamente magnífico! Cristina Vigon

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  6. Obrigada, Cristina! Beijinhos!

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