As linhas de “Wellington”

Ontem vi-me, de novo, no olho da  História. Assisti a um filme, português, de excelente elenco, que retrata um momento traumático da nossa existência lusa: as invasões francesas. Mais concretamente, a última, protagonizada por Masséna, em 1811, há precisamente duzentos e um anos! Não foi assim há tanto tempo, e este episódio da nossa história está marcadado no código genético da nossa consciência colectiva. No livro biográfico do Professor Adriano Moreira, ” A Espuma do Tempo. Memórias do Tempo de Vésperas”, o digníssimo político relata que nas aldeias transmontanas, no percurso da sua meninice, ouvia, naqueles locais ainda pejados de vida, na voz popular, o quão estava impregnado o horror naquela mente colectiva, pela última invasão militar sobre o nosso país continental. As populações aldeãs, há meio século atrás, ainda registavam, com dor, as entradas dos exércitos napoleónicos no nosso solo. De norte a sul!

Este episódio explica muito do que somos e no que nos transformámos enquanto povo. Há momentos no filme que espelham bem o nosso firme e resoluto carácter, enquanto alma sofredora, nostálgica, melancólica, saudosista, corajosa, digna, solidária, mas de igual modo, estroina, desconfiada, destrambelhada e sonhadora… Somos um povo único, nos nossos cruzamentos étnico-culturais, de características muito mais atlânticas que mediterrânicas, o que nos dá e retira, na alegria, o fervor da crença. Somos este mar que nos rodeia, de meseta sobre o nosso lombo coriáceo. Por muito que pensemos, hoje, que não somos ou fomos, dignos do nome da nação que ostentamos, estamos redondamente enganados. Somos um povo de carácter, que sabe o que é seu e conhece, como ninguém, o significado da palavra identidade! Quando as hordas de Napoleão irromperam sobre este pequeno país, muitos houve que não se resignaram à sua sorte de vítimas. Muitas houve, por certo, e nisso os franceses mostraram, aqui como na restante Europa, ao que vinham, nos seus gritos de liberdade, igualdade e fraternidade, que não estavam talhadas para animais sacrificiais. Já, então,  Napoleão perdera a máscara de libertário, de revolucionário, para assumir, definitivamente, a de jacobino! No terror, pela força, pela auto-legitimidade, pela auto-coroação, as ideias dos franceses, em pleno século dezanove, a então potência continental de uma Europa fragmentada, serviam a conquista pelo domínio, pelo saque, pelo estupro, pelo assassinato, pela intimidação e pela devastação, criaturas saídas do reinado da revolução francesa de 1789 . Portugal, o pequeno Portugal, colocado entre a tenaz das duas potências, viu-se como o principal campo de batalha da frente sul, onde Wellington haveria de começar os seus primeiros pequenos, mas simbólicos triunfos, que criariam a onda de confiança e tenacidade, que varreria, de norte a sul, as águias do poder napoleónico.

Este filme é um retrato verossímil desses acontecimentos históricos, não só pelo palco, real, da serra do Buçaco, onde se deu a primeira batalha do reencontro da terceira invasão, e onde os franceses tiveram o seu primeiro revés, e depois todo o percurso sinuoso até às chamadas linhas defensivas de Torres. Uma obra-mestra da engenharia militar, que ainda hoje surpreende pela sua grandeza, meticulosidade, eficácia e secretismo. Wellington conseguiu erigir, juntamente com a população portuguesa, que ocorreu dos campos para o desígnio da salvação nacional, todo um arsenal de defesa, consubstanciado em três linhas de fortes e redutos militares, aproveitando a geografia dos locais que circundavam Lisboa, entre o Rio Tejo e o Mar (onde os Ingleses tinham o seu real domínio), edificando, em segredo, a inexpugnável condição da nossa integridade nacional: a nossa soberania territorial! Masséna, diz a lenda, curvou-se ao génio de Wellington quando recebeu a primeira salva à entrada do forte da Arruda. Admito que sim, porque o traço do cavalheirismo, sempre acompanhou os homens da morte, nos quadro das suas posições bélicas, onde o respeito e a honra prevaleciam, ou tentavam prevalecer sobre o ódio, a vingança, ou tão simplesmente a vã Glória.

Neste quadro de guerra, de morte, de deslocações massivas das populações entre Coimbra e Santarém, praticando-se a política de terra queimada que haveria de deixar os exércitos franceses demasiado esfomeados, desmoralizados e por demais fracos para tentarem uma incursão séria sobre as linhas defensivas do exército anglo-luso, nota-se, no filme, mais que uma tentativa de contextualização histórico-militar dos factos à época, uma incursão no sentido de reproduzir quadros pessoais, estados de  espírito, manifestações de biotipos, que no fundo, mais não faz do que nos dar um retrato do nosso povo, da nossa auto-visão enquanto nação. E que povo, confesso! Um povo orgulhoso de si, do seu país, do seu Rei, da sua bandeira, do seu património, da sua identidade, em suma. Um povo fatalista, mas corajoso. Não resignado às circunstâncias, que soube pegar nas suas mãos, e com o seu sangue, no apoio de leais aliados, lutar pela sua vida, pelos seus bens, pelos seus, e pela sua pátria! Confesso que o filme se torna longo e exaurido para quem conhece os meandros da história, para quem como eu, calcorreou quilómetros e quilómetros, para com os meus filhos, sentirmos, nos locais, naqueles fortes e redutos, mesmos daqueles ainda cobertos pela terra do nossa indiferença, o peso e a energia dos acontecimentos, mas ainda assim, vale a pena, vale muito a pena assistir em Português, a um grande filme realizado por Portugueses, com um elenco de luxo: um Wellington Malkovichiano que aparece sublime no seu semblante de vaidoso incorrigível, debaixo da sua capa de militar genial, um Masséna distante, arrogante e desfocado, e um grande soldado tuga, o Sargento Francisco Xavier (Nuno Lopes), entre outros bons actores, que retratam esse Portugal que não devemos deixar morrer nas nossas consciências: forte, determinado, corajoso…

É um pena que as novas gerações não conheçam a História, e nada se interessem pela História. Aos meus filhos faço questão, sempre que posso, de lhes incutir estes momentos, relatando acontecimentos e deslocando-me, com respeito, muito respeito, aos locais da nossa maior conformidade histórica. Faço-o com gosto, com o prazer que quem ama a História e vê, no seu país, o seu lar, o seu reduto, o seu berço e simultaneamente a sua campa. Amo o meu país e as suas gentes. Com toda a minha alma! Assim como respeito todos quantos morreram por causas nobres, dando o seu sangue em nome de causas maiores a si, chame-se ela a sua Pátria, a sua família a sua religião, ou tão simplesmente a sua ideologia, a sua crença, os seus valores, a sua conduta, ou a sua incontornável verdade! Sou daqueles que acredita que a vida não é um fim em si mesmo, e que não vale tudo para nos mantermos vivos. Respeito, e muito, quem dá a sua vida, voluntariamente, por causas maiores. Tenho a certeza que hoje, neste preciso momento, seria capaz de dar a vida por muitas coisas, pelas quais valeria a pena morrer. E há muitas, felizmente! A vida, para mim, só faz sentido, na sua razão proporcional de a viver. Uma vida sem sentido, não é vida! Por isso é tão fácil morrer pela nossa Pátria, seja ela o que for!…

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Posted on 1 de Novembro de 2012, in Sem categoria and tagged , , , , , , . Bookmark the permalink. Deixe um comentário.

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