Prémio: “Relatório minoritário”


Terapia em acção


Olá, como vão?
Daqui fal’a tia!
Sabem que faço terapia
Quando estou no chão?

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Comitiva oficial


É a comitiva oficial,
Escolhid’a preceito,
Como se dum feudal direito
É sempr’a mesma, igual!?

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A vingança serve-se fria…


Dizem-me marcado
Pr’a vingança,
Mas enquanto há vida há esperança
E logo se vê o resultado…

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Sobre a censura…


Mario Vargas Llosa, “O apelo da tribo”, sobre Jean-François Revel

Valeu a pena?


Valeu a pena?
É discutível…
A mudança é imperceptível
De tão pequena!

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Prémio: reflexão


Obra feita


Dia da liberdade,
O 25 de abril,
E quer a censura vil
Autoridade?

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Protegido: Ser ou não ser?


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Risco d’escrita


Não posso escrever
Porque tudo se m’imputa,
Um poema de luta
Lido a correr

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Cicciolina


Cicciolina,
Não te preocupes,
Não, não te culpes
Por ser est’a sina…

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Coragem!


Não há sanções
Qu’o abalem,
E por mais que dele falem
Multiplica os canhões,

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Sistema produtivo


Finalmente,
Um sistema de valor!
Eis a valorização do trabalhador
Proeficiente!

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Indemnizações


Consta-se por aí,
Quem sabe se por gaguez,
Que foram por razões de liquidez
Que saí…

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Palhaçadas


E novidades?

Porcos a voar!!? (Opláaaaahhh!!)

Carrega (o) benfica!!Carrega (o) benfica!!

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Batalha campal


No meio de tantos mortos e feridos
Ergueu-se o capitão:
– Quantos são, quantos são?
Chegou a hora, inimigos!

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O doutrinário


Há que conhecer os estatutos,
Diz-nos o nosso doutrinário,
O outrora panfletário
Agora ensina os cultos!?

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Vergonha!


Que vergonha,
Ver nesta votação
O espelho duma nação
Triste e bisonha…

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Perdoar? Não!


E s’isto mudar?
E s’em vez d’uma pena
Outra medida serena
Se pronunciar?

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Nada continuará igual….


A parte mudou de lado,
De perspetiva legal,
E d’acusação sideral
Não viu no final um culpado!?

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Carta Aberta


Alô, está aí alguém?
Socorrooooooo!!!
Se não m’atendem “morro”
À espera da casa-mãe…

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Estudassem!?


(Modo gago-público)

Está aberta a sessão!
Viram como não sou gago!?
Estou in… in… indigitado
De… de… depois da eleição!

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É-pi-co!!


Foi épico,
Meu caro Conceição!
Que recuperação!
Que jogo elétrico!

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Prova indiciária


Ninguém sabia de nada
E a assinatura não condiz;
As escutas são pueris
E os e-mails de conta indeterminada…

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Tecido adiposo?


A prescrição
Revelara-se exagerada;
A gordura estava concentrada
No acto de diGestão,

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Mensagem de fumo


Ai, que saudades,
Da pura reivindicação!
Quem acreditaria qu’a função
Se dav’a tais liberdades?

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Guerra das rosas


Afinal o alemão 
Tinha era inveja,
E agora só há quem o veja
De calças na mão…

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Teoria das organizações


“Para estudarmos as organizações temos de juntar bocados, fragmentos, partículas de teoria de organização e de dados empíricos de origens muito diversas” (March e Simon, 1979).

            De acordo com a afirmação de March e Simon (1979) acima exposta, é fundamental perceber as organizações sob vários prismas, na medida em que estas são constituídas por diferentes variáveis ou componentes, tais como sejam a “estrutura, (a) comunicação, (a) liderança, (as) rotinas, (o) poder, (ou os) sistemas de remuneração e (a) divisão de trabalho” (Gomes, 1987, p. 33). Estas constituem as partes que dão lugar ao todo como um sistema complexo, que, por sua vez, apresenta caraterísticas muito especificas. Como afirmado por March e Simon (1979,) no estudo das organizações torna-se determinante “juntar bocados, fragmentos, partículas de teoria de organização e de dados empíricos de origens muito diversas”. Assim, englobando os diversos elementos das teorias da análise organizacional, constata-se, segundo Magalhães (2005), existirem dois paradigmas organizacionais: o velho e o novo paradigma. No primeiro paradigma, a organização é tida como uma estrutura complexa, constituída por recursos humanos e matérias. Este paradigma é essencialmente caraterizado pela ideia de que as organizações são estruturas que processam informações, as quais são respondidas de forma mecânica pelos seus integrantes. Esta visão não considera o indivíduo como criador de conhecimentos, mas sim como processador e reprodutor de informações. 

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Lobotomia


Há medicina gratuita
Na instituição;
É grátis a operação
De cabeça aberta!?

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Narciso


Narciso
Era um belo pastor,
Todo ele em si era amor,
Mas odioso ao riso…

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Razão processual


Qual é a diferença
Entre ter-se razão,
E querer p’la acção
Apenas a sua sentença?

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Alegoria processual


Ali estava ela,
Feita uma freak,
Com ares de vip
Da Bobadela,

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O fado do tripulante


Ai, que desgraça,
A do tripulante,
Passar a “pedinte”,
Estendend’a mão a quem passa…

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Pagar com tod’a classe


O democrata da classe
Não se cala,
E o que ele se rala
Se não s’o remunerasse!?

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Baruch Espinosa – O Tratado Breve


Tratado Breve começa de forma bastante inocente, apresentando variadas provas da existência de Deus e, tal como o Tratado para a Reforma do Entendimento, a  conclusão da obra é que a felicidade e o bem-estar humanos, a “bem-aventurança”, consiste no conhecimento de Deus e na forma como tudo na natureza depende dele. Esta conclusão faz-se acompanhar por uma exortação a amar Deus como o nosso mais elevado e mais verdadeiro. No entanto, o Deus cuja existência se demonstrou, não é o Deus familiar aos membros da Igreja Reformada, ou de qualquer outra religião.

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É já a seguir!


Devem pensar
Qu’isto por aqui se queda,
E que depois d’ascensão
Não importa aterrar?!

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Filme eleitoral


A sério?
Não se arranjava melhor?
O fim do trabalhador
Foi o único critério?

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Cansaço


Cansaço

O torpor da tua mente
Num pensamento vago e vesgo,
No incessante desassossego
Deste meu corpo dormente
,

Que cansado se prostra
Não ao descanso merecido!
Ao pensamento doído
Que vagueando se mostra…

Nessa energia latente
Resisto-me à rendição,
Ao sono por condição
Do cansaço permanente…

Como s’a frequência
Do batimento cardíaco
Foss’o meu soporífero
Por tão fraca cadência…

O corpo jaz inerte
Nesse repouso incompleto,
Qu’em tal mente desperto!
No cansaço que se repete…

Corpo e mente separados
Nessa posição comum,
No cansaço onde algum
Tem os seus “sonos” trocados…

Condição de viajante
Que rompe ciclos e fusos
A esses sonos reclusos
Dormidos mais adiante…

E nessa temporização
Tod’o cansaço se sente,
Senão no corpo na mente,
No catre desse avião…

2014

Paco!


Paco!

Paco! 

Filho de Lucia

E da Andaluzia,

Subiste ao eterno palco!


E por lá já vibras

No teu sentido flamenco!

E escuta-te Deus atento,

Em rumbas e bulerias! 


E todo o céu é acústico

Na vibração do mestre,

Dessa guitarra celeste

A tão sublime público! 


Mas chor’a Andaluzia

Nesse profundo jondo,

A música do mundo,

De Paco de Lucia!


 Entre duas águas

Foi-se o mestre além

D’encontr’a Camarón,

Por nossas mágoas! 


Numa infinidade o som

Faz o verbo, o ser!

Ao ver o flamenco nascer

Nesse Paco o dom! 


Num travo lusitano

Por referência materna,

A essa memória eterna,

De ti Paco, hermano! 


Olé!

26 de fevereiro, 2014

O sonho do celta


“Cada um de nós é, sucessivamente, não um, mas muitos. E essas personalidades sucessivas, que emergem umas das outras, costumam oferecer os contrastes mais estranhos e assombrosos sobre si” – José Enrique Rodó

Primeiro, a manifestação de interesses: sempre adorei os celtas. Julgo-me, aliás, pela genealogia directa da minha mãe, portador de algum sangue ancestral desses indómitos guerreiros do passado. Essa horda tribal que, vinda do coração da Europa em plena idade do ferro, se espraiou por todo o continente ,e dando aos locais onde assentaram, sós ou miscigenados, o corpo do seu legado incontornável: a língua, os costumes e o seu místico panteísmo. Locais como a Galiza, Gales, a Bretanha, a Helvécia, o Valois, o Eire, Galátai (província romana da Ásia Menor, no território da actual Turquia), mostram bem essa enorme “diáspora” celta em todo o território europeu. Portugal não foi excepção, fosse por derivação directa e cruzada com essa província de Espanha, a Galiza, fosse porque os nossos guerreiros mais emblemáticos, os Lusitanos, se tomam de ascendência celta. Toda a nossa história, como a de muitos países desta Europa ocidental, se acham incrustadas dessa mística guerreira/druídica dos antigos celtas/gauleses que, no caso português, teve uma particular simbiose com as tribos autóctones da península ibérica: os Iberos.

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Moscovo: o metro e a (outra) cidade


Moscovo

O metro e a (outra) cidade

Entrei e muitas vezes saí nesses palácios subterrâneos que são algumas estações do metro de Moscovo, quais salões de baile, sob os imensos – e imponentes – candelabros de cristal, e que nos dão a aparência dum salão czarista dos tempos modernos. Numa mixórdia de gentes e danças, de carruagens e andanças, um ocidental sente-se perdido nesse manancial de anúncios em russo, e quase ausente num mundo estranho. Tornas-te então tu o foco, nessa presença perdida em busca dum rasto de lucidez, de orientação e destino…

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Soledade


Soledade

.

Há cem anos nascida

A minha avó Soledade,

Mulher duma outra idade

Esquecida…


O seu nome oriundo (e)

Desse Levante o sentido:

Solidão – sentimento vivido!

O nome qu’a trouxe ao mundo


Doze filhos que criou 

No maravilhoso reino de Torga!

Nessa escassez, por “desforra“,

A todos a idade chegou! 


A Montanha gera gente assim,

Mais resistentes qu’a vida!

Agreste, desafiante, sofrida…

Viventes numa prova sem fim! 


E mesmo quand’o vento mudar

E do Levante só ficar a solidão,

Saberemos dessa vida a razão

Que a fez ficar! 


Soledade…silvará o vento

No seu regresso ao pó,

Cem anos de “solidão”, avó!

Em ti a imensidão do tempo…

2013

Tua


Tua

Por entre vales e serras
Segui nesse caminho-de-ferro,
Onde fumegava, sem erro,
Nas cercanias das fragas,
A locomotiva a carvão!
Chiando o seu percurso
Junto a esse rio em repouso,
Num cenário de ficção…


O caminho agreste
Desbravado p’lo aço,
Fazendo do vale regaço
E uma passagem celeste!
Por entr’a rocha dura
Se fez o socalco da linha,
Que sinuosa (agora) definha
No seu abandono e secura…


Na memória do tempo,
Ligand’o Porto a Mirandela
Toda essa viagem era uma tela
Qu’era pintada por dentro,
Na consciência de quem
Ali viajava à origem
Por esse troço de vertigem
Ao colo da minha mãe…


Ficou-me pr’a sempre
Essa imagem da lua
Reflectida no Tua
Como uma lembrança ausente:
Uma nostalgia de tempo,
Uma saudade do espaço,
Desse calor e cansaço
E dessa cadência cá dentro…


Esse momento d’outrora
Com a sua marca granítica
Em cada viagem mítica
A essa aldeia sem hora,
Numa paragem contínua
Nos apeadeiros do vale,
Onde viajava o caudal
De tod’um rio baixo-acima!


O movimento é a vida
De tod’o rio e seu nome,
Qu’ele parado é disforme
Nessa barragem erguida!…
E sem tempo por parar
Nesse contínuo da vida,
Há essa memória vivida
Que é esse rio a passar…

2014

Agosto


Agosto

.

Confess’a saudade
Desses tempos já idos,
Outrora esquecidos
Dessa tenra idade
,

Quando lá me sentia
Na aldeia da serra
Tomand’o gosto da terra
Na água que bebia,

Pura e cristalina
Que corria da fonte,
Nessa aldeia do monte
Envolt’a em neblina….

Nas manhãs d’Agosto
Qu’o sol dissipava,
À aldeia regressava
Este alegre rosto!

Pois por lá era eu
Em total liberdade,
E daí a saudade…
Dum tempo só meu!

Do cheir’a café
Ao dealbar da manhã
Preparad’o afã,
Que de pronto era eu!

Sentind’o cheiro
Da vida campestre,
Volvia-me a “peste”
De rosto trigueiro!

O rapaz da cidade
Montav’a tenda!?
Sem ponta d’emenda
Ou sanção do “alcaide”!

E viajava, “agreste”,
Por vales e fragas,
Em disputas, refregas
De menino campestre…

Fingia namoros,
Tentava conquistas,
Guiado por pistas
A imaginários tesouros!

Galgava indómito
Os galhos da vida,
Sem sela revestida
Tal qual um “Jerónimo”!

Investindo no lombo
Do nervoso animal
P’lo espaço sideral
De viagem ao tombo…

E caído volvia
A nova montada!
P’lo campo ou estrada,
E de novo caía…

Levantando-me a jeito
Como se nada fosse…
Fugindo ao coice
Do bicho satisfeito!?

E volvia a casa
Da minha avó,
Tão cheio de pó…
E sem quebra d’asa!

E no dia seguinte
Uma nova manhã,
Que no riacho uma rã
Observa já vinte!?

E todos mergulham
Na nudeza da água,
Onde uma onda propaga
O calor donde bulham!

E no jogo da bola
O desafio da disputa,
Numa pequena luta
Disputada à sola!

No caminho de volta
O balido das cabras,
Onde, no sumiço das fragas,
O pastor nem se nota…

Anoitece na aldeia
Nessa noite d’Agosto,
Todo breu o meu rosto
Na conversa ateia…

Um fantasma que vive
No caminho a jusante,
Uma morte errante
P’lo amor que não teve…

Só o oculto me trai
Nesse meu desassombro!
E de pronto m’escondo
Dessa noite que cai…

E avanço a casa
Da Avó que m’espera,
Nessa minha quimera
Ond’o tempo não passa!

Mas já cresço na vida
E me esqueço da aldeia,
Dessa minha epopeia
E infância esquecida…

Surge-me agor’a saudade
Desses tempos de verão,
Recordando o Marão
Na travessia da idade!

E por isso lá volto
Neste meu pensamento
Ao exacto momento
Onde estive por luto…

Nessa última ida
À aldeia do Corgo,
O meu tio jaz morto
Nessa igreja esquecida…

Ao momento inexorável
Da passagem do tempo:
Um corpo sem movimento
Inadiável…

E é essa lembrança
Que m’o faz reviver,
Já depois de crescer
Desde qu’era criança:

A memória é junção
Entr’a vida e a morte,
E um caminho pr’a norte
No calor do Verão…

2014

Segóvia


Segóvia

.

Desd’os tempos d’Astérix

Que estava pr’a te conhecer:

Dois mil anos de “índex”

Até te ver…


A cidade ancestral

Desse enclave hispano,

E de travo Imperial

No aqueduto Romano! 


Qu’o Império assentou

Em pedras inamovíveis,

E no legado perdurou… 


Em feitos indescritíveis 

De Vespasiano, Trajano!

Imperadores perecíveis…

Sítio dos “mouros”


Sítio dos “mouros”

.

Um dado penedo dos mouros
Na génese da nossa Nação,
Em Penalva sobr’o Dão,
E ao Santo Sepulcro tesouros

Esvaídos na nossa ignorância,
Das nossas raízes templárias,
E que nessas cruzes lapidárias
S’inscreva a nossa errância!

Na serra da Panamura
C’o esse legado d’arrojo,
O desalento ali perdura…

Nesses símbolos milenares
Os traços da nacionalidade(!?)
Derribados dos altares…

Teatro Amazonas


Teatro Amazonas

O requinte europeu
Em plena amazónia,
No teatro, cuja harmonia,
Foi da época apogeu!

O ciclo da seringueira
Fez da borracha fortunas!
Dando a Manaus colunas
Num classicismo d’algibeira!

E o último reduto indígena
Foi p’la civilização invadido
Numa obra “alienígena”!

Tod’o um elenco europeu
Pr’a sua inauguração!…
E no índio outro Romeu!?

Marraquexe


Marraquexe

Quand’a ti avancei
Tinha-te por indiferente,
Um mundo estranho, ausente
Daquilo qu’agora sei:

Cidade que não s’esquece
De bazares em movimento,
E uma praça por centro
De ti, bela Marraquexe!

Qu’o teu odor nos enleia
Nessas curvas sinuosas,
Como Jasão por Medeia!

E só por ti tom’o deserto
E tod’um Atlas trespasso!
Pr’a lá te ter…descoberto!

Vejer de la frontera


Vejer de la frontera

No alto, na elevação,
Com vista sobre Trafalgar,
Há um castelo mudéjar
Tomado pelo cristão…

Processo de reconquista
Na divisão doutra fé;
Já não s’anuncia Maomé
Até onde alcanç’a vista!

Vejer, posto de fronteira,
Por terras de Al-Andaluz!
Defesa da linha primeira!

Duma espantosa beleza
Nessa alvura sem mácula;
Mas moura tal princesa…

Panamá


Panamá

Há um país no canal
Dito Panamá – “pescador”,
Baptizada p’lo colonizador
Como cidade natal!

O colonato europeu
Nesse Pacífico, o primeiro!
Terra do pioneiro
Que p’lo Corsário ardeu!

Teve Morgan a vingança
Nas mãos do índio e crioulo,
Para se ter em abastança!

E ao Espanhol o desterro,
Dez quilómetros adiante…
D’encontro ao “Casco Viejo”!

Ait Ben-Haddou


Ait Ben-Haddou

Nesse planalto o oásis
Florescente de bazares!
E num jardim de pomares
A água flui de raíz…

O deserto à porta
Forj’o grande Kasbah – a fortaleza!
Pr’as caravanas de cuja seda
Alguém transporta

Em segurança a Mogador,
Ond’o Português
É Rei e Senhor!

Mas nesse baú
Voltará o ceptro
A Ait Ben-Haddou!

Ponte das barcas


Ponte das barcas

Palco de morte e desgraça
Da invasão continental:
O rio cheio no caudal
Leva no leito quem passa…

No desespero da guerra,
C’o Porto sitiado,
A ponte é o elo quebrado
Que afogando enterra…

E na franca investida
Mil almas jogam-se às parcas,
Julgando salvar a vida…

Fugid’os monarcas
Deles não restou nobreza,
Restando ao povo tais barcas…

Constância


Constância

.

És uma princesa de tranças, 

Alva, sonhadora, delicada,

Por esses dois rios banhada;

Ao Tejo ou ao Zêzere te lanças? 


Nesse desespero amoroso

Cantando p’lo poeta-príncipe,

Que desterrado e ínsigne 

Cantou por seu o teu desgosto!? 


Que tão bela choraste

Em dois leitos tanta água

Cristalina que bastasse! 


E nisso corre tanta mágoa

Nessa beleza de mulher,

Qu’e só por Lisboa desagua…

Megalitismo


Megalitismo

Nesse reduto tão ermo
Um rasto d’antigo culto,
Em plenas “terras do demo”
Onde não há vivalma ou vulto,

Descobre-se o traço do tempo
Em tais pedras milenares,
Sem tecnologia, instrumento
Que lá as edificassem em altares!?

O santuário necrológico
Em antas, dólmens, mamoas,
Desse homem ontológico!

Que primitivo sabia
O seu lugar no universo,
E que sábio ele hoje seria…!

Waterloo


Waterloo

.

Num campo verde aplainado
Ao centro do continente,
Vivem papoilas por gente
Nesse vermelho sangrado.

São testemunhas do tempo
Que alinhadas se mostram,
E como soldados se prostram
Pr’a reviver o momento…

Dessa batalha perdida,
Que pr’a essa Guarda Imperial
Significou a própria vida!

E não se baixando o canhão,
A rendição é exigida!
Perdeu Napoleão…

Roma


Roma

Uma eternidade de séculos
Fizeram de ti Imperial,
Desse regime brutal
De feitos marciais, hercúleos!

E da capital secular
Do omnipotente Romano,
Tornaste-te a espiritual
Do Deus de rosto humano.

Roma, fonte da civilização,
Panteão de múltiplos deuses,
Foste da barbárie à razão!

E num registo a céu aberto
Tens esses séculos à vista;
É só percorrê-los…desperto!

Penedono


Penedono

Tem esse penedo dono:
Álvares Gonçalo Coutinho!
E a Inglaterra tomou caminho
O Grão-Magriço de Penedono!

Quis conhecer gentes e terras,
As suas leis e façanhas,
Suas virtudes e manhas…
Galgando a vales e serras!

É o cavaleiro solitário
Dos Doze de Inglaterra,
E a honra tem-no destinatário…

Na arquitectura da guerra
O castelo é de conto-de-fadas,
Monumento a tal quimera!

Praça Vermelha


Praça Vermelha

No meu fugaz imaginário,
Espião me imaginei…
E contra Russos lutei
No seio do seu santuário,

Nessa praça tão vermelha
Onde jaz sepultado o seu “santo”,
Não é São Basílio, adianto…
Mas a Lenine s’assemelha!

Embalsamado na cripta
Com’o Socialismo científico
Qu’ali viveu, há quem o diga….

E eu, este soldado críptico,
Quase um viajante no tempo,
Assalt’o Kremlin e o político!

Madrid


Madrid

Tantas noites de folia,

Tanto mundo aí desbravado,

Madrid, dessa Gran Via,

Cidade do meu El Dorado! 


Em ti me vi descoberto

Nessas tuas belas-artes,

E eu, ali tão perto…

Queria lá saber de Velásquez!? 


Só da arte de viver

No lusco-fusco sombreado,

Num tempo antes do ser…


E no regresso projectado

A essa “calle del volver”,

Eis afinal El Prado!?

Bruxelas


Bruxelas

.

Cinzentona, mas sincera,

Esta cidade flamenga,

Duma beleza austera

E do Habsburgo avoenga…


 Cidade-tampão, fronteiriça,

Entr’o flamengo e o francófono,

Esse símbolo que se atiça

Da federação ao autónomo! 


A cidade pan-europeia!

Centro do mundo cívico,

Que nem a Coroa enleia!? 


E neste processo crítico

Como avançar à União

Neste ciclo político?

San Lorenzo del Escorial


San Lorenzo del Escorial

Na Serra de Guadarrama,
Sobranceiro sobre Madrid
Um Mosteiro salv’a Espanha
Nessa fé onde cresci:

Sou Filipe, o prudente,
De sangue real Português,
Habsburgo e exigente
De tod’as mercês!

Combato Calvino
No credo e batalhas,
Pois a Reforma abomino!

Para tanto consagro a Deus
O Escorial e as mortalhas
Que guarda da Pátria os seus!

Riba-Côa


Riba-côa

.

Nas terras de Riba-Côa
Proliferam os castelos,
Defensivos como elos
De gente que lá os povoa!

Mas já escasseia o homem
Que deu glória a essa raia,
Alicerçando essa teia
Do nacionalismo de ontem!

Hoje o que existe são sombras
Desse passado esquecido…
Em tais ruínas por obras!?

Algo se faz pr’as manter,
Mas esse homem já rareia
Nesse interior a morrer…

Sabugal


Sabugal

As terras de Riba-Côa
Aos mouros resgatadas,
Foram praças muralhadas
Pr’as defender de Lisboa!

Erigidas por Leão
Nesse límite da raia,
E o Sabugal, atalaia
Contr’o inimigo d’então!

Castelos de divisória
Nessas fronteiras incertas,
Ond’as nações, por alertas,
Edificaram a História…

Às sucessivas incursões
Entre Leão e Portugal…
Fixa-se no Côa o caudal
Pr’as restantes concessões.

E nessa época distante
Esta nação tão pequena,
Foi em Alcanizes plena
Pr’a s’outorgar gigante!

E D. Dinis, de passagem,
No castelo pernoitou…
Do Riba-Côa s’apossou:
A Portugal a outra margem!

Com D.Manuel as cinco quinas,
Simbolo único em Portugal!
E a torre pentagonal…
Das hostes Filipinas!

Sessenta anos de hoste ducal
O castelo tornou-se hispânico,
Durante o império oceânico…
Até ser restaurado Portugal!

Nova invasão, outro século…
Pois qu’a raia é a sua entrada,
E Portugal abriu a estrada
A “Napoleão” e ao séquito!

Mas na retoma serviu a raia
E o Sabugal por fortaleza!
A essa força anglo-portuguesa,
Ao ser cenário duma batalha…

E qu’estandarte ali esvoaça
Nessa bandeira de Portugal!
Na praça-forte do Sabugal
Que ninguém tres-passa!

Castelo Mendo


Castelo Mendo

As pedras das casas
De blocos graníticos,
Quadrados, cilíndricos
Em vigas e estacas,

Dão-me a visão
Da comunidade,
Que velha, na verdade,
É efabulação…

Pois a pedra assenta
Por intemporal
Na casa rural…
Que só ela sustenta

A vida d’outrora,
Que já não existe!
E é isso qu’é triste
Na vida d’agora…

É só viajar
D’encontro ao tempo,
Passando no “centro”
E nele ficar…

E por lá quietos
Ver na imaginação
O Portugal d’então
Onde hoje estão os velhos

Pois eles morrendo
Que país se tem
Nessa terra-mãe
De Castelo Mendo?

Castelo altaneiro
Em muralhas esquecido,
Que lá foi erguido
Pr’a ser o primeiro!

Essa fortaleza
Qu’a Nação defendia
Ond’a terra feria
C’a sua bruteza!

Onde hoje a fronteira
Já se desboroa…
Pois dali a Lisboa
Vai uma terra inteira!

El Dorado


Fui marinheiro
Nesses mares do sul
E dessa baía o cônsul,
Porque lá cheguei primeiro…

E encontrei esse mundo
Virgem, verde, inocente…
E nessa vaga, docemente
Larguei âncora ao fundo!

Entrei audaz nessa terra,
De tez vermelha ao meu olhar…
Outro homem com quem lutar
Desajustado pr’a essa guerra!

Conquistei novo continente,
Que selvagem o fui “domando”,
Onde até então só o normando
Se tinha visto por tal gente!

E nessa vitória o cativei,
Ao índio feito para ser livre,
E aí morreu de tifo e gripe
Nas cidades qu’edifiquei!

Civilizando, busquei o negro
Pr’a edificar o novo reino!
Que mais robusto, de maior treino,
Se fez escravo de pleno emprego!

E muralhei tod’a essa costa
Contr’a cobiça d’outros reinos…
Contr’a piratas, contr’a corsários,
Fiz fortalezas em tal resposta!

E nessa armada, em galeões
Levei a prata, levei o ouro,
Que pr’os indígenas esse tesouro
Não tinh’a forma de tais dobrões!

Eram “meras” representações
Do Homem, de Deus, da Natureza…
Que lá vi em tal beleza
Do mundo sem nações!

Todo um arquétipo do universo
Sobressaía nessa arte…
E o Homem era tão só uma só parte
Desse tesouro já submerso!

E tresloucado o homem branco
Por tal luzir do tom dourado,
No retinir do prateado…
Tomou d’assalto o outro tanto!

Serviu o ouro pr’a enriquecer
O soberano e a nação…
Qu’em tal codicia a geração
Não anteviu o seu perder!

Perdid’a honra na escravidão,
Tod’a fortuna só viu nascer
Nova cobiça, novo poder,
E no novo mundo, competição!

E novas guerras, entre nações
P’la vã fortuna, pelo poder!
P’la influência, sempre’a crescer,
Do catequismo e religiões…

E nesse poder de si cativos,
Já dizimados p’las doenças,
Manietados nas suas crenças,
São os indígenas Então convertidos!

E a conquista se tem plenária
Em escravos, ouro e prata!
No mar fechado e terra farta…
E a Igreja, já planetária!

Mas noutras vagas outras nações
Tomam a riqueza desse lugar,
Porque investem a trabalhar
Tomando tod’o lucro das transações!

Crescem em poder como potências
E já contestam o mar fechado!
E lá avançam por seu legado
Arrebatando as consciências!

Forçam a cisão do catolicismo
Pr’a constestar o poder de Roma!
Lá vem Calvino e a Reforma,
E noutra frente o Anglicanismo!

E o mar aberto ganha jurisdição,
Há novas frentes, novas potências,
Outras, decadentes, somam regências
E perdem o rumo à navegação…

Istambul



Tive-te por guia
Na velha Istambul:
Da Mesquita Azul
À Hagia Sophia…

Todo um dealbar
De séculos, milénios;
Turcos, gregos, arménios,
Num modo d’estar…

Eras otomana
Ao chegar o século,
Como se de currículo
Não fosses sultana!

Na grandiosidade
De tais minaretes,
Falaste aos crentes
Da tua eternidade…

Séculos sobre séculos,
Da sublime porta!
Da qual ainda se nota
Em torres, pináculos!

O centro oriental
De Bizâncio a Constantinopla,
Mas em Istambul a porta
Foi imperial!

Desd’a velha Europa
Às portas de Viena,
Ond’o Islão teve plena
Batalha e derrota…

Ao médio oriente
Passando por África,
E na fronteira itálica
O poder do crescente!

Onde no mar fechado
Dividiu o mundo,
Dum poder oriundo
Do califado…

Juntando em si
O poder dos reis,
Dos mullahs, dos fieis
E do Sultão Ali!

Fiel seguidor
Do grande profeta,
Que d’Istambul a Meca
Foi seu protector!

E por cosmopolita
Agregou nações,
Várias religiões
Numa só “mesquita”…

E nessa vivência
Fez-se o otomano,
Num direito soberano
A tod’a diferença…

Tive-te por guia
De toda cidade,
Nessa antiguidade
De cidade-magia!

E por inesquecível
Que foss’o teu rosto,
Foi no sol oposto
Que te vi temível…

Ali no palácio
Dos velhos sultões,
Onde ainda se passeiam multidões, Desd’o Arménio ao Trácio!

Vêem-se aos milhares
Como prontos guerreiros!
Querem ser os primeiros…
Nas marchas militares!

Correm ao tesouro
Que está no harém,
E eu fujo mais além
Ao corno d’ouro…

Passo p’lo bazar
Dessas especiarias,
E quantas iguarias
Para temperar!!

Inebriado
Em cheiros, sabores,
E em tais multi-cores
Passo ao outro lado…

Tenho-me em Pera,
Junt’a velha Gálata!
E olh’o mar de Mármara
Que nunca s’altera…

Nessa mansidão
Ladeiam-no os barcos,
Que ligam como arcos
A Europa ao Islão…

E num vai-e-vem sem fim
A terra segue unida,
Na orla ond’a partida
É um regresso afim!

Por isso nesse guia
Vi lá a minha cidade,
Que brot’a claridade
Qu’em Istambul se via…

E nessa parecença,
Lisboa é a guia;
Istambul, já a sabia,
Separad’à nascença…

Platão: filósofo e discípulo


Pesquisa bibliográfica 

MAIRE, Gaston. Platão. Lisboa: Edições 70, 2002. 

PETERSON, Sandra. Socrates and philosophy in the dialogues of Plato. Cambridge:   Cambridge University Press, 2011. 

PLATÃO. Apologia de Sócrates. Tradução de Manuel de Oliveira Pulquério. Lisboa: Edições 70, 2019. 

PLATÃO. A República. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2017. 

PLATÃO. Críton. Tradução de Manuel de Oliveira Pulquério. Lisboa: Edições 70, 2019. 

PALTÃO. Êutifron. Tradução de José Trindade Santos. Lisboa: Imprensa nacional Casa da Moeda, 1983. 

PLATÃO. Fedro ou Da Beleza. Tradução de Pinharanda Gomes. Lisboa: Guimarães Editores, 2000. 

PLATÃO. Fédon. Tradução de Maria Schiappa de Azevedo. Coimbra: Livraria Minerva, 1988. 

PLATÃO. Hípias Maior. Tradução de Lucas Angioni. Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra, 2019. 

PLATÃO. O Banquete. Lisboa: Edições 70, 2018.

PLATÃO. O Sofista. Tradução de Henrique Murachaco, Juvino Maia Jr., José Trindade Santos. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2011. 

REALE, Giovanni. Para uma nova interpretação de Platão. São Paulo: Edições Loyola, 1997. 

KOYRÉ, Alexandre. Introdução à leitura de Platão. Lisboa: Editorial Presença, 1998.

. A pesquisa bibliográfica indicada reflete uma abordagem, em dois níveis, ao pensamento platónico: a do discípulo, expresso em obras onde o diálogo socrático predomina no rescaldo da aporia, e a do filósofo, onde o texto reflete predominantemente os preceitos da filosofia platónica, como sejam, por exemplo, a Teoria das Ideias. 

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A teoria das ideias


O filósofo já assim nascera:
Prolixo, dialético, retórico;
Escrever’o Discurso do Mé(to)do
E assim se racionalizara…

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Testemunha-chave


Como qualificar
Quem revel’o privado,
Alguém qu’o faz divulgado
C’o intuito d’o provar?

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Salve-se quem puder!?!


Anão,
Trata lá da chafarica,
Vou voltar à velha política
Da contra-mão!!

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Amazona


Amazona

A mulher voltou à tribo
Depois da batalha austera,
Qu’ela amazona, na guerra,
Matar’o seu grande inimigo!

O Amor, sentimento fero
De quem mata pr’a viver!
Qu’aí o sentimento de querer
Se basta com’o grande erro…

Depois de saciada a fome
De sangue, de raiva e vingança,
O Amor tornara numa criança
Que não dava sequer p’lo nome…

Mas dava-lhe a seiva da vida
No leite em si embutido,
Bebend’o seu menino querido
A esperança perdida…

Qu’o leite por si derramado
Tomou-lhe a condição de mãe!
E o ódio feito refém
Foi no filho libertado…

Viver!


Viver!

Há uma força vivente
Que nos atrai par’a terra,
E na idade a espera
É um regresso eminente…

Qu’a idade é sintoma
Desse cumprir social,
E o registo igual
De tod’o homem é norma!

E da criança ao adulto
Há todo um salto invertido,
Pois estar no mundo, erguido,
É uma proeza de culto…

Só a criança cá dentro
Pode voltar a crescer,
Que menos qu’isso é morrer
Na falta do sentimento.

Essa alegria espontânea
Na felicidade do riso,
Que num só salto, sem piso,
É muito mais que façanha!

É mais viver sem a regra
Que nos impõe a conduta,
E lá crescer nessa luta
Que dá ao adulto a refrega!

Todo um sentido de vida
Nesse acto integrado,
Num gesto “bem educado”,
Numa imagem distorcida…

Pois na memória do tempo
Que passa ao nosso olhar,
Tod’o Homem quer saltar
Sobr’o próprio movimento…

Em qu’a hora é a sentença
Do seu tempo que s’esgota,
E no adulto que se nota
O regresso à nascença!

À virtude desse feito
Ond’a regra não se tem,
E o tempo estar além;
Não ter força de conceito!

Ter da vida o momento,
Sem registo que se soma,
E sentir que não há norma
Nesse salto contr’o vento!

Ter de tod’os elementos
A noção do seu conteúdo,
Sem saber o que é o mundo
Fora dos pequenos momentos…

Tudo joga no sentido
Desse preciso registo…
E tod’o mundo é isto!…
Quand’o salto é atingido!

E no alto do poder,
Qu’é o salto sobr’a água,
Não há vingança nem mágoa…
Tud’o que sobra… é viver!!

Isaías


Isaías

Sabe-o Isaías
Por sua abordagem
Que tod’a imagem
Contempl’o Messias!

Na praia, o espera
Pr’a ser lá ungido
No seu ar sofrido
Que vê por quimera!

Disser’a passagem
Dos célebres escritos:
É dos aflitos
A primeira viagem!

E ele lá aguarda
Pelo fim dos tempos
Temidos tormentos!!
A quem s’acobarda!

Pois esses olhos
Vieram navegar
Àquele lugar…
Sem medo d’escolhos!

Já Vasco da Gama
O vira, desperto!
Vivendo sem tecto
E roupa na cama…

E cruzand’o olhar
Soube-o poderoso!
No porte orgulhoso
Qu’o fez lá esperar…

Ele er’a sentença
Dali aportar!
Pois, nesse lugar
A terra era imensa!

Escrever’o profeta
Nesse texto bíblico
C’o mundo, cilíndrico,
Er’a porta entreaberta!

E ali se navegou
Virando ao Índico
E o mundo, cilíndrico!!
Nunca mais aplanou!!

Tomaria Colombo
Pois uma outra rota
Convicto c’a frota
Navegaria em redondo!!…

Em “desertas” ilhas
Lá chegou a Espanha
Na grande façanha:
A Índia p’las Antilhas!!?

De tudo isso sabia
Esse olhar ausente
Navegando, em mente,
Nessa utopia…

Ainda vive a esperança
Nesse desalento…
Tod’o homem é o centro
No qu’a vista alcança!

O anjo caído


Do humano traço
Sobressai a beleza,
E a delicadeza
Nesse rosto escasso…

Não sei se num sono
Ou na morte incerta,
Uma asa entreaberta
Tem-se em abandono!?

Não, não é humana
Essa placidez!
Não há rigidez
Em tod’a membrana!

Tem que ser divino
Quem assim parece,
Pois não arrefece
No frio assassino!?

Mas é quebradiço
Nesse seu semblante,
E se inteligente
É o cérebro omisso…

Foi-lhe arrebatado
Num irado gesto,
Por ter do incesto
Um rosto culpado!!

Vinha, pois, do Céu
Pr’a na Terra amar,
Mas no seu lugar
No amor cedeu!

Tomou-se do corpo
Sem salvar a alma,
E um anjo na cama
É o próprio aborto!

Viveu em pecado
Pregando a palavra;
Um anjo-da-guarda
Pode ser perdoado?

Tod’a divindade
Se molda no bem,
Qu’um anjo não tem
Outra necessidade…

Porquê o desvio
Do pecado original,
Se do bem o mal
É o seu extravio!?

Há nisso uma lógica
No desvio da obra,
Pois que tod’a cobra
É imagem bíblica!?

E a tentação
Faz a carne fraca!
Que s’o mal nos mata…
Há reencarnação!

E no Deus traído
A morte seduz!
Não no anjo-de-luz,
Mas já nele caído…

“Os miseráveis”


“Os miseráveis”

Tod’a miséria é latente
No rosto da ambição;
Na réstia de civilização,
À vista de tod’a gente!

Na opulência da galeria
Há um desfalque no ar,
Porque quem vai a passar
Vê, fingindo que não via…

Instala-se, então, a miséria
Nos recantos da opulência.
É moral a indigência
Que se vê na “Galeria”!

É gritante a pobreza
Confrontada ao requinte;
Qu’ali dentro o pedinte
Já rebaixa a “realeza”…

E o rei da nova Roma,
Fundador dum novo Estado,
Num assalto é tomado
Pelo velho “carcinoma”…

O tumor da sociedade
É a pobreza manifesta,
E a gente que “não presta”
Ali prostrada à verdade?

O saber é consciente
Mesmo vedado o olhar,
E pode o “rico” ignorar
Qu’a pobreza é presente?

O qu’ofende o cidadão
Não é saber qu’ela existe!
É saber qu’aquele triste
Já lhe estende a sua mão…

E como se fosse uma praga
Já volteia a indignação!
Em que miserável situação
Se tem um homem que paga!?

Ser visto nessa presença,
Naquele recanto de luxo?
Se tod’a miséria é refluxo
Do qu’a sociedade ostenta?

É a nossa outra face…
Que s’esconde por vergonha!
E s’a pobreza é bisonha
A miséria é o disfarce!

A ver a band’a passar



Ao ver a banda passar
Tenho sonhos de menino…
Oiço ao longe aind’o sino,
Sai o santo no altar…

O cortejo sai pr’a fora
A propagar essa fé,
E ninguém arreda pé
Enquant’a procissão se demora…

Ouço a metálica estridência
Dos instrumentos de sopro,
E nessa cadência no topo
Tem-s’o santo em clemência!

Naquela postura divina
A qu’o santo dá aprumo
Tod’a gente tem um rumo
Numa rua pequenina…

Acompanha-s’o sagrado
Para reforçar o festejo!
Que pagão é o desejo
No caminho abençoado…

É a festa que s’anuncia
Nos caminhos do prazer,
Pois que tod’o ano a sofrer
Merece alguma alegria…

Nas barracas do comer
Há cerveja e grelhados!!
Já s’esquecem os pecados,
Que mortais não podem ser!!

Pois tend’a procissão
Em honra do nosso santo
Criado todo este encanto,
Onde está a remissão?

É da música a lembrança
Mais qu’a reza ou o sermão,
Que ficou na multidão
Com’a força de bonança!

Pois qu’a banda acentua
Esse hábito muito antigo,
De só ela levar consigo
Tod’o “pecado” de rua…

Como s’a música remisse
Qualquer alma condenada
E nesse percurso d’estrada…
No cortejo ela seguisse!?

E já depois d’impoluta
Voltasse ao prazer mundano!!
Que por “sofrer” tod’o ano…
Revolvesse “dissoluta”!

E na praça, ao bailar,
Já tomada de desejo…
Já saída do cortejo
Não foss’a banda voltar,

Forçava outro cortejo
Mas sem essa multidão…
Qu’o ribombar da paixão
Quer-se na surdez dum beijo!

Eu vi a band’a passar
Nessa profusa alegria!
Pois que nela a fantasia
Era um santo perdoar…


Assombração


Assombração

Era um retrato
Já doutra época…
E na porta aberta
Sente-s’o contacto!!?

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Assombração

Era um retrato
Já doutra época…
E na porta aberta
Sente-s’o contacto!!?

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Branca de neve


O lobo já se aproxima
À casa, vindo da floresta
E na sombra, se vê a besta
Projectada lá acima…

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Mulher


Mulher

Eis a Deusa-Mãe,
Prova da fecundidade;
E da eternidade,
Ela e mais ninguém!

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Consultório jurídico



E agora Gago,
Não concebes o recurso?
Tanto labor por teu uso
Assim negado?

Não vais recorrer?
Não concebes outro prisma?
Não arranjas mais uma testemunha
Que não deite tud’a perder?

Não concebes advogado
Que saiba mesmo alegar,
Alguém que saiba ao menos falar
Estando calado?!

Alguém que saiba de direito
E se assemelhe a um causídico,
E mesmo sem pensamento jurídico
Tenha postura de pleito?!


Espiral


Espiral

Neste Bolero que ouço
Há eterno movimento…
Da periferia ao centro,
Do alto ao calabouço…

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Corrida



Corrida

É uma corrida
Por obstáculos…
E nela os fracos
Falham a partida!

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“Civilização”


Nesse olhar
Tod’a memória,
Não de glória!
Desse lugar…

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O túnel do tempo


O túnel do tempo

Há um vagão de transporte
Por cada memória de vida,
E nessa viagem perdida
Há um encontro de morte

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Há um vagão de transporte
Por cada memória de vida,
E nessa viagem perdida
Há um encontro de morte

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Perdida…


“Assim vai a Terra”,
Pens’a gaivota…
E nesse vai-e-volta
Espera…

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A porta


A porta

Há sempre uma porta
D’entrada ou saída,
E assim é a vida…
Qu’importa?

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